Argumentos quase lógicos

Argumentos quase lógicos

ARGUMENTOS QUASE LÓGICOS (APRESENTAÇÃO)

O QUE SÃO?

Os argumentos quase lógicos são aqueles que lembram os raciocínios formais, dedutivos, no entanto, pelo fato de empregarem a linguagem natural, isto é, ordinária, vulgar, são suscetíveis de interpretações variadas, o que não é possível com a linguagem formal que é unívoca.

  • Os argumentos quase lógicos são aqueles que, por sua estrutura, lembram os raciocínios formais.

  • Os raciocínios formais parecem ser o resultado de um esforço de precisão e de formalização ao qual teriam sido submetidos os argumentos quase lógicos. Assim:

RACIOCÍNIO FORMAL = ARGUMENTO QUASE LÓGICO - PRECISÃO E FORMALIZAÇÃO

  • A linguagem vulgar, que é a da argumentação, é suscetível de interpretações variadas, e uma palavra repetida duas vezes numa mesma proposição pode ser tomada, se tal for necessário, em dois sentidos diferentes.

  • Exemplo de Heráclito: “entramos e não entramos duas vezes no mesmo rio”

  • Certos enunciados, como “crianças são crianças”, simples tautologias, aplicações de um princípio incontestado, o principio da identidade, tornam-se ao mesmo tempo significativos e contestáveis, se a mesma palavra é tomada em dois sentidos diferentes.

  • A linguagem formal propõe a univocidade, ou seja, só admite uma forma de interpretação.

  • É praticamente impossível empurrar para o absurdo aquele que se serve da linguagem natural, vulgar, porque quase sempre se pode encontrar uma escapatória, graças a reinterpretação dos termos utilizados.

ABSURDO E INCOMPATIBILIDADE

  • Na linguagem formal é a contradição que leva ao absurdo, enquanto na argumentação esse papel é desenvolvido pela incompatibilidade.

O absurdo, na linguagem formal, dá origem à contradição pelo fato de os signos utilizados terem sempre a mesma interpretação; a incompatibilidade, na linguagem natural, corresponde ao absurdo da formal. A incompatibilidade, na argumentação, é apresentada para ser contornada e aceita, ou para ser superada para não se cair no ridículo. Para isso é necessário que o orador tenha a coragem para apresentá-la como preferível ou, ainda, para abandoná-la ou restringir seu alcance. Eis alguns exemplos de incompatibilidades entre duas regras que se opõem: “O instrutor que ensina que se deve obedecer aos pais que não se deve mentir. O pai manda mentir, ou pai e mãe dão ordens inconciliáveis.”; “A pessoa que espera nunca matar um ser vivo. Alguém lhe demonstra que se tomar antibióticos acabará matando uma multidão de micróbios.”

RETORSÃO

  • Um caso curioso de incompatibilidade é o da autofagia, que não opõe duas regras, uma à outra, mas sim uma regra às condições ou às conseqüências da sua aplicação: a retorsão coloca a autofagia em evidência.

  • Exemplo do teatro, em que o público começa a cantar e um policial sobe ao palco para anunciar que tudo o que não está no programa é proibido. Alguém da platéia questiona se ele, policial, estava no programa.”; “Recado deixado por um patrão ao empregado: “Fui ao restaurante ‘Elefante Branco’ onde poderá me encontrar. Se não sabe ler, leve esta nota ao livreiro que a lerá para você.”

Segundo Aristóteles, a retorsão é a única maneira de defender o principio de não contradição contra quem nega a sua validade.Um tipo especial de incompatibilidade é a retorsão que põe em evidência a autofagia, quando uma afirmação é incompatível com sua aplicação.

IDENTIDADE FORMAL E IDENTIFICAÇÃO

Se a incompatibilidade é o argumento quase lógico que corresponde à contradição formal, o parceiro quase lógico da identidade formal é a identificação total ou parcial. Enquanto a identidade formal – quer ela se fundamente na evidência ou numa convenção - é constringente, a identificação, que pode ser discutida, resulta de uma definição ou de uma análise.

INCOMPATIBILIDADE ESTÁ PARA ARGUMENTO QUASE LÓGICO, ASSIM COMO CONTRADIÇÃO FORMAL ESTÁ PARA RACIOCÍNIOS FORMAIS.

IDENTIFICAÇÃO TOTAL OU PARCIAL ESTÁ PARA ARGUMENTO QUASE LÓGICO, ASSIM COMO IDENTIDADE FORMAL ESTÁ PARA RACIOCÍNIOS FORMAIS.

A identidade, na linguagem formal, é apresentada como uma evidência ou é estabelecida convencionalmente; a identificação na linguagem natural equivale à identidade na formal. Ela pode ocorrer entre duas expressões e visar tanto uma identidade completa, como parcial dos elementos confrontados. Serve de exemplo o ditado popular “Tal pai, tal filho”. Muitas vezes, a identificação fornece apenas uma aproximação por meio de uma definição que permite enquadrar o assunto, circunscrevendo-o.

Da mesma forma, todas as análises constituem raciocínios quase lógicos e devem seguir uma direção tendo em vista a busca de adesão do auditório.

Todas as formas de análise constituem raciocínios quase lógicos, quando os resultados da análise são apresentadas como normativos pelo auditório: se a análise se limita a uma tautologia (“criança é criança”, “mulher é mulher”) ela seria inatacável, mas sem nenhum interesse argumentativo.

RECIPROCIDADE E REGRA DA JUSTIÇA

O argumento de reciprocidade é aquele que assimila dois seres ou duas situações, mostrando que os termos correlativos numa relação devem ser tratados da mesma forma. A reciprocidade está presente na regra de justiça, que exige o tratamento igual de seres e situações assimiláveis umas às outras por possuírem os mesmos traços pertinentes, que justificam a sua integração numa mesma categoria. A regra de justiça recebe a denominação específica de regra de ouro quando são aplicadas a situações que se pretendem simétricas: “Não faças aos outros o que não queres que te façam a ti”.

TRANSITIVIDADE

A transitividade é um caso específico de identificação quando acontece uma relação entre um termo e um segundo termo, e uma relação entre um segundo termo e um terceiro que determina que esta relação existe também entre o primeiro e o terceiro. Existe uma relação entre B e C e esta relação estabelece um eixo entra A e C simultaneamente. Não se pode aplicá-la rigorosamente nos casos em que o caráter transitivo da relação é talvez desejado, mas não estabelecido Um exemplo clássico é: “Os amigos de meus amigos, meus amigos são”.

O TODO E SUAS PARTES

  • A concepção de um todo como a soma de suas partes pode servir de fundamento a uma série de raciocínios que se podem qualificar de argumentos de divisão e de argumentos de espécies.

  • No argumento por divisão, as partes devem poder ser enumeradas de uma maneira exaustiva, mas podem ser escolhidas conforme se quiser e de maneira bastante variada.

  • Na argumentação por espécies, trata-se de divisões sobre as quais se está de acordo que preexistem à argumentação e que não é preciso necessariamente enumerar de maneira exaustiva.

A concepção de um todo como a soma de suas partes pode servir de fundamento a uma série de raciocínios que se podem qualificar de argumento de divisão. A divisão possibilita tirar uma conclusão sobre o todo, depois de se ter analisado cada uma das suas partes. Exemplo: “– Tiveram bom tempo nas férias? – Oh sim, num mês não choveu mais que duas vezes… – Mais nenhuma? – Não, uma vez durante oito dias, e a outra durante três semanas.”

DILEMA

O dilema é um tipo de argumento por divisão em que se mostra que duas ou mais eventualidades encaradas conduzem à mesma conseqüência. Apresentar um argumento em forma de dilema é o mesmo que afirmar que se está “entre a cruz e a espada”

COMPARAÇÃO

A comparação também constitui um argumento quase lógico desde que não se relacione a pesos ou a medidas. Ela se estabelece pela idéia subjacente de que foi realizada uma operação de controle. Exemplo: “o crime é igual, quer se roube o Estado, quer se façam liberalidades contrárias ao interesse público”

PROBABILIDADES NÃO CALCULÁVEIS

Aos argumentos quase lógicos ligam-se todos os que se referem a probabilidades não calculáveis

O exemplo de Pascal é clássico: “… todo jogador arrisca com certeza para ganhar com incerteza; e, contudo, ele arrisca com certeza o finito para ganhar incertamente o infinito, sem pecar contra a razão …|…]. Mas a incerteza de ganhar é proporcional à certeza do que se arrisca, segundo a proporção dos riscos de ganho e de perda. [… a nossa aposta tem uma força infinita quando, num jogo com tantos riscos de ganho como de perda, há o finito para arriscar e o infinito a ganhar”.

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