Oscar Niemeyer

Oscar Niemeyer

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mínimo denominador comum 2 desdobramentos recentes da arquitetura moderna

É costume da historiografia, e do próprio Oscar Niemeyer, dividir a sua produção entre as obras que vão de Pampulha a Brasília como um primeiro período, e a produção posterior à da capital como um segundo. Cabe aqui, entretanto, estabelecer naquele alguma divisão que lhe desvele as nuances. Afinal, a produção do arquiteto inicia-se em 1935 – ano de sua graduação pela Escola Nacional de Belas- Artes –, e certamente suas obras dos anos 1950 guardam algumas diferenças em relação às dos anos 1940. Ou seja: nem suas obras iniciam-se em Pampulha, em 1941, nem esteve inerte o pensamento do arquiteto ao longo de quinze anos de trabalho.

Seus primeiros trabalhos, de 1935 e 1936 – anteriores ao contato pessoal com Le Corbusier – caracterizam-se precisamente por uma leitura habilidosa, mas ainda restrita, dos princípios do mestre suíço, concretizadas na Obra do Berço (1935), e apenas projetadas na Residência Henrique Xavier (1936) e na Residência Oswald de Andrade (1936). Vê-se ali não apenas a expressão clara do esqueleto independente de concreto armado deslocado dos fechamentos – agora envidraçados – como o uso de terraço jardim, janelas em fita e mesmo das mediterrâneas abóbadas das Maisons Jaoul (1919) e do impluvium da Residência Errazuriz, no Chile (1930).

Noutra via, Oscar vinha desenvolvendo em seus projetos de 1936 a 1943 um pensamento de cunho nativista que o leva a articular telhados cerâmicos, muxarabis e generosos avarandados [3], devidamente codificados pelas interpreta-

As obras de

(...)procuro orientar meus projetos, caracterizando-os sempre que possível pela própria estrutura. Nunca baseada nas imposições radicais do funcionalismo, mas sim, na procura de soluções novas e variadas, se possível lógicas dentro do sistema estático. E isso, sem temer as contradições de forma com a técnica e a função, certo de que permanecem, unicamente, as soluções belas, inesperadas e harmoniosas. Com esse objetivo, aceito todos os artifícios, todos os compromissos, convicto de que a arquitetura não constitui uma simples questão de engenharia, mas uma manifestação do espírito, da imaginação e da poesia. [2]

Oscar Niemeyer em Belo Horizonte [1]

RESIDÊNCIA JOÃO LIMA PÁDUA Rua Bernardo Guimarães, 2751 Belo Horizonte Cliente: João Lima Pádua e Lúcia Valladares Pádua Cálculo Estrutural: Joaquim Cardozo Paisagismo: Roberto Burle-Marx Execução: SORENGE – Sociedade de Obras de Engenharia

1. Vestíbulo 2. Estar 3. Bar 4. Pátio 5. Jantar

6. Cozinha 7. Copa 8. Quarto serv. 9. Quarto 10. Apto casal danilo matoso macedo

23 desdobramentos recentes da arquitetura moderna 2 mínimo denominador comum ções modernas que Lúcio Costa vinha dando a estes elementos não apenas em projetos como a Vila Operária de Monlevade (1934), como também em seus textos – Razões da nova arquitetura (1934) e Documentação Necessária (1938) [4].

A estas leituras some-se o contato direto com Le Corbusier e a condução das obras do Ministério da Educação e Saúde Pública – MESP – pelo próprio Oscar [5], concluídas apenas em 1945 e simultâneas à construção da Pampulha. Deve-se ainda ao europeu a sugestão do uso de azulejaria de feição portuguesa e da modenatura em granito definindo os volumes [6] .

Há razões, assim, para que consideremos as obras da Pampulha não como o início efetivo da obra de Niemeyer – conforme ele próprio afirma recorrentemente [7] –, mas como a confluência de ao menos duas linhas de atuação que o arquiteto vinha desenvolvendo ao longo de oito anos. É ainda sua primeira contribuição individual relevante articulando o léxico desenvolvido pelo grupo a cargo da construção do MESP.

A produção arquitetônica de Oscar Niemeyer em Belo Horizonte sempre esteve, direta ou indiretamente, ligada à figura política de Juscelino Kubitschek. E se podemos agrupar este conjunto de obras em períodos determinados, eles correspondem precisamente aos mandatos do político como prefeito da capital (1940-1945) – indicado por Benedito Valadares - e como governador eleito do estado de Minas Gerais (1951-1955).

O primeiro grupo de obras, centralizadas sobretudo no Conjunto da Pampulha, contribuiu para a definição de uma linguagem arquitetônica que viria a ser conhecida internacionalmente como “Estilo Brasileiro” [8] . O segundo grupo de obras viria a constituir a manifestação mais madura e depurada deste vocabulário, dando mostras de um encaminhamento do pensamento do arquiteto rumo ao que viria a ser uma mudança radical em sua prática ocorrida a partir da segunda metade dos anos 1950, com o projeto para o Museu de Caracas (1955) e com as obras de Brasília (1955-1960).

pampulha

O contato de Oscar Niemeyer com a elite política e intelectual mineira tem suas origens não apenas em sua relação com o Ministro da Educação, Gustavo Capanema, mas também em sua obra para o Grande Hotel de Ouro Preto, encomendado em 1938 por Rodrigo de Mello Franco Andrade, que criara e que presidia o Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico – atual IPHAN. As viagens constantes a Ouro Preto levavam-no a Belo Horizonte. E o caminho até Juscelino e o início de Pampulha nos descreve Oscar:

Um dia Capanema me levou a Benedito Valadares, governador de Minas Gerais, que pretendia construir um cassino no ‘Acaba Mundo’. E foi nessa ocasião que conheci Juscelino Kubitschek, candidato a prefeito de Belo Horizonte. Fiz o projeto, que mostrei a Benedito, mas o assunto só foi retomado meses depois, quando JK, prefeito da cidade, novamente me convocou. No dia combinado voltei a Belo Horizonte com Rodrigo. Tornei a conversar com JK, que me explicou. ‘Quero criar um bairro de lazer na Pampulha, um bairro lindo como outro não existe no país. Com cassino, clube, igreja e restaurante, e precisava do projeto do cassino para amanhã’. E o atendi, elaborando durante a noite no quarto do Hotel Central o que me pedira. [9]

RESIDÊNCIA JUSCELINO KUBITSCHEK Av. Otacílio Negrão de Lima, 4188 Pampulha – Belo Horizonte Cliente: Juscelino Kubitschek Paisagismo: Roberto Burle-Marx Obras de Arte: Alfredo Volpi e Paulo Werneck. (atribuídos)

(Paulo Werneck)

1. Terraço 2. Varanda 3. Painel azulejos (Volpi) 4. Biblioteca 5. Estar 6. Música 7. Rouparia 8. Quarto 9. Banho 10. Vestir 1. Circulação 12. Pátio 13. Painel pastilhas 14. Depósito 15. Copa 16. Lavabo

17. Cozinha18. Jogos/jantar 1

mínimo denominador comum 2 desdobramentos recentes da arquitetura moderna

24 É para o genro de Valadares, João Lima

Pádua, que Oscar desenvolve uma residência não na Pampulha, mas na área central de Belo Horizonte. Em que pese a sua aprovação na prefeitura datar de 1943, conceitualmente, a obra constitui um elo entre as pesquisas nativistas da primeira etapa da obra de Oscar e as suas obras à beira da represa.

A casa é implantada em “C” num lote de esquina, ocupando todo o lote e voltando sua abertura para a rua, com a privacidade garantida pelo paisagismo de Burle-Marx e por uma parede de cobogós.

O pátio interno, a azulejaria de feição tradicional – com a mesma estampa usada no Cassino, no Iate e na Casa do Baile – emoldurada por mármore travertino e principalmente o impluvium configurado por telhado cerâmico em capa-canal conferem à obra o fundamento nativista, contrastado pela laje de concreto sob as telhas, pela marquise em “V” que marca a entrada principal e pelos panos de vidro que abrem a casa para o jardim interno.

A outra residência deste período, projetada no mesmo ano às margens da Lagoa da Pampulha e destinada a servir ao próprio Juscelino, lida com os mesmos elementos de modo diferente.

O lote generoso permitiu a criação de um jardim à entrada, com lago e caminho sinuoso, de modo a propiciar ao proprietário uma apreciação panorâmica da lagoa a partir da porção superior do terreno em aclive, com a necessária privacidade. O telhado em “V” mostra-se perpendicular ao eixo central da casa, cobrindo a entrada da garagem, a varanda de entrada e a área social, ligada por mezanino a meio-nível à área íntima – implantada acima, acompanhando a topografia dos fundos do lote.

Aqui o “C” está voltado para os fundos, encerrado pelos quartos, a um lado, e pela área de jogos e acomodações dos empregados, a outro. A cozinha e área de serviço interpõem-se entre as três salas e o pátio, de uso exclusivamente íntimo. A caixilharia em madeira esmaltada dos quartos, o revestimento da empena frontal em paus-roliços e a própria implantação da casa revelam algum parentesco com as obras de feição nativista da primeira fase do arquiteto, como sua residência na Lagoa Rodrigo de Freitas (1941) ou a residência de Francisco Peixoto em Cataguazes (1941), mas o mezanino revestido em madeira, a cobertura em laje plana, o amplo pano de vidro frontal e o próprio dinamismo do conjunto representam um passo definitivo rumo à síntese que se estabelecia nas demais obras da Pampulha.

Talvez a obra que melhor expresse esta nova síntese seja o Cassino. Implantada numa península, a obra divide-se em três blocos interligados e funcionalmente bem definidos: um bloco principal, de jogos, o restaurante e pista de dança em forma de pêra avançando sobre a lagoa, e o bloco de serviços discretamente atendendo aos dois. A imagem do conjunto é a de volumes elevados sobre pilotis e, de fato, uma malha regular de colunas permeia todos os espaços. Entretanto, o bloco principal – destinado aos jogos – é implantado no solo, e neste nível aberto em pano de vidro. Toda alvenaria do térreo é revestida em azulejos de feição tradicional portuguesa, complementando a leveza e transparência que ressaltam a regularidade dos volumes acima. A composição

CASSINO DA PAMPULHA Av. Otacílio Negrão de Lima, 16580 Pampulha – Belo Horizonte Cliente: Prefeitura de Belo Horizonte Cálculo Estrutural: Joaquim Cardozo Paisagismo: Roberto Burle-Marx Obras de Arte: August Zamoiski, Alfredo Ceschiatti, José Pedrosa

1. Salão de entrada 2. Recepção 3. Rampas 4. Escada p/ toaletes 5. Terraço 6. Bar

7. Elevador 8. Pista de dança 9. Bastidores 10. Entrada de serviço 1. Toaletes 12. Escritório

13. Restaurante 14. Palco 15. Rampas 16. Cozinha 17. Salão de jogos

25 desdobramentos recentes da arquitetura moderna 2 mínimo denominador comum principal da fachada de entrada repete o motivo do estudo do MESP de Corbusier para o aterro do Flamengo, refletindo a alteração de pé-direito interna em composição assimétrica, onde a excentricidade da marquise de entrada é balanceada por uma ampla parede de espelhos interna. Visto da lagoa, o volume curvo do restaurante desdobra-se numa curva senóide abrindo a possibilidade de se descer diretamente aos jardins externos, projetados por Burle-Marx. Duas esculturas pontuam os acessos frontal e de fundos, complementando a composição arquitetônica. A obra é plena de elaborados detalhes de acabamento, com uma paleta de revestimentos que vai da peroba-docampo (revestindo os bastidores do palco do restaurante) ao aço inoxidável (nas colunas e corrimãos internos), passando pelo alabastro (nas rampas e parapeitos dos mezaninos). As esquadrias do salão principal são moduladas em estreito ritmo vertical (50cm), de modo a realizar com suavidade as curvaturas que conformam os fechamentos – numa provável referência à corbusiana Villa Savoye (1929).

A sintaxe que havia sido desenvolvida no

MESP converte-se em leitmotiv não apenas para esta obra, mas também para o Iate Clube. É o volume puro, aberto em pano de vidro e definido com moldura e empena em pedra, elevado do solo por uma colunata sobreposta a panos de vidro e a paredes curvas revestidas em azulejos decorados, o uso abundante de cores, a integração ao paisagismo de Burle-Marx e o uso de protetores solares como brises e cobogós.

O volume do Iate, com a cobertura em “V” avança sobre a água, configurando sob si uma garagem de barcos. Aqui as colunas são ovais e a dureza da modulação das esquadrias a leste é amenizada por um pano de brises móveis que protegem a varanda oeste. Esta prolonga-se num terraço sobre a lagoa, complementando o amplo salão do segundo pavimento, dividido em duas partes não apenas pelo rincão central como por uma – demolida – parede acústica curva. O contraste com a ampla abertura norte do salão é dado ao sul, pela empena cega revestida em granito que marca a entrada ao edifício.

Se nos dois exemplos anteriores Oscar demonstra sua habilidade no trato desta linguagem, sua manipulação chega aos limites nos trabalhos seguintes.

Na Casa do Baile, restam apenas as formas curvas térreas – dois círculos interpenetrados –, em vidro e paredes revestidas por azulejos, associadas a colunas revestidas em granito. A laje de cobertura, em lugar de dar o contraponto reto à fluidez abaixo, acompanha-as de modo inédito, alongando-se pela margem até o extremo da pequena ilha em que se implanta, arrematada por um pequeno palco ao ar livre. A fluidez da laje é dada pela altura constante de seu topo em 30cm, ocultando uma grelha no vão interno e lajes maciças com vigas invertidas transversais na marquise externa.

A variação por meio na cobertura é a tônica da composição da igreja de São Francisco de Assis. Projetada em 1943 (dois anos após as primeiras obras), e recuada de suas visadas,

IATE CLUBE DA PAMPULHA Av. Otacílio Negrão de Lima, 1350 Pampulha – Belo Horizonte Cliente: Prefeitura de Belo Horizonte Cálculo Estrutural: Joaquim Cardozo Paisagismo: Roberto Burle-Marx Obras de Arte: Roberto Burle-Marx, Cândido Portinari

1. Espera 2. Secretaria 3. Enfermaria 4. Vestiário feminino 5. Lavanderia 6. Vestiário masculino 7. Barbearia 8. Garagem de barcos 9. Hall 10. Mural (Burle-Marx)

1. Salão de jantar 12. Orquestra 13. Salão de estar 14. Sanitários 15. Cozinha 16. Bar 17. Espelho d’água 18. Mural (Portinari) 19. Terraço 20. Brise-soleil

mínimo denominador comum 2 desdobramentos recentes da arquitetura moderna

26a pequena obra é, talvez, a mais célebre do conjunto.

Sua excepcionalidade deve-se precisamente à comunhão coerente, clara, de manieras, de artifícios estilísticos, estruturais e funcionais os mais diversos. No que nos concerne, se na Casa do Baile o volume elevado dobra-se ao sabor das curvas abaixo, aqui ele curva-se em parábolas até o chão, prescindindo quase que totalmente de pilares deslocados. O mesmo detalhe dos brises do Iate é usado sobre a entrada, de modo a proteger-lhe o Coro – implantado de modo tradicional. A torre sineira também traz alguma semelhança com composições vernaculares luso-brasileiras, e liga-se por uma leve marquise inclinada à entrada, revestida do mesmo granito das demais obras e harmonizada com o acabamento de topo de todas as parábolas.

A composição parabólica gera recorrentes debates acerca de sua suposta contradição estrutural, como se deste jogo complexo se cobrasse a coerência e simplicidade fabril dos galpões de Casablanca de Perret (1915) ou do Salão do Cimento, de Maillart (1939). O estudo do projeto estrutural de Joaquim Cardozo [10] revela-nos que a cobertura da nave não foi concebida como arco de compressão pura, até porque várias cargas concentradas – do coro e da marquise, por exemplo – impedem-lhe este funcionamento. De fato, as pequenas abóbadas da sacristia são travadas por vigas-tirante e descarregam em pilares verticais ocultos pelo tímpano ao fundo e pela parede revestida em vidro jateado à frente. O vidro revestindo a parede é outro artifício aparentemente contraditório que, na verdade, harmoniza a leitura frontal do conjunto, por analogia com o pano de entrada.

Internamente, as formas livres comparecem na parede baixa do batistério, dando lugar aos bronzes de Ceschiatti ao mesmo tempo em que auxiliam na preservação da nave sem bloquear a integração visual com a lagoa – efeito reverso da longitudinalidade forçada pela planta trapezoidal. O suave deslocamento entre este trapézio e a abóbada ortogonal do altar ilumina o painel de Portinari ao fundo, dispensando, por seu efeito cênico, esforço artístico maior que o afresco. A azulejaria de feição portuguesa aqui convertese – como no MESP – em elemento decorativo especialmente elaborado por Portinari para o reverso do batistério e para pequenas plataformas que preservam a circulação onde a altura é impeditiva. O tímpano externo complementa o jogo unitário, onde o outrora rígido granito se curva para emoldurar o painel do artista.

Neste exuberante contexto, comumente considerado como o Conjunto da Pampulha, a pequena sede do Golfe Clube – hoje dentro do jardim zoológico –, apartada das margens da represa, passa despercebida. Ali Oscar executou pela primeira e única vez a composição entre impluvium e abóbada, originalmente pensada para a residência Oswald de Andrade. A patente qualidade inferior do edifício deve-se a uma execução deficiente, à ausência do tratamento de materiais presente nas demais obras, à fragmentação interna da planta – que acaba por converter o contraste entre diagonais e curva num débil reflexo superficial da idéia original – e à inexecução ou descaracterização total de um paisagismo coerente. Além da composição geral, resta de íntegro o detalhamento dos

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