Relatório - Curva ABC

Relatório - Curva ABC

Universidade de São Paulo – USP

Faculdade de Ciências Farmacêuticas – FCF

Disciplina de Organização Farmacêutica

Uso da classificação ABC na farmácia de dispensação

São Paulo, 2005

Índice

1.Introdução:

O gerenciamento de estoque tornou-se, nos últimos anos, fundamental para os resultados de uma empresa. Na época da inflação galopante, ter um grande estoque era bom investimento. As mercadorias valorizavam diariamente. Hoje, a realidade é outra. Os produtos devem estar prontos para serem consumidos e o encalhe é prejuízo certo. Mas não é só isso. Um bom estoque exige cuidados quanto à organização e à manipulação dos produtos. O manuseio das peças ao controle de entrada e saida, da limpeza às informações que indicam os resultados da empresa, da localização às compras mais eficazes. O gerenciamento do estoque é, enfim, indispensável para que seja alcançada a excelência na administração da empresa.

É mais comum do que se imagina uma empresa não ter o exato conhecimento do conteúdo e do capital imobilizado em seu estoque. Isso é resultado da falta de organização. Para começar a solucionar esse problema, o primeiro passo é fazer um levantamento de todos os produtos estocados, realizando promoções para se livrar daqueles que não encontram mais demanda no mercado e, portanto, estão apenas ocupando espaço e gerando custos. A próxima etapa é cadastrar todos os produtos no sistema, distribuindo-os no estoque em endereços criteriosamente estabelecidos para poder facilitar sua localização. Quanto maior o giro, mais à mão deve estar a mercadoria. Quanto menor o número de pessoas que tiverem acesso ao estoque, mais fácil será preservar a sua organização. A principal base de dados para a administração do estoque é o conhecimento da demanda. E é importante ter em mente que demanda é a concretização da venda do produto, não levando em conta eventuais consultas que não se transformaram em negócio (essas podem se transformar em futuras demandas). A demanda deve ser registrada no sistema para que possa ser considerada com exatidão na elaboração dos balanços, que, por sua vez, serão fundamentais para a reposição do estoque com os produtos certos nas quantidades necessárias. Afinal, um estoque equilibrado tem a quantidade mínima e suficiente para atender à demanda até o momento da chegada da próxima compra. Assim, a melhor opção é comprar apenas os itens necessários, preferencialmente os de maior giro, deixando as peças de menor giro para as encomendas.

Sabe-se que as empresas estão sempre buscando um melhor gerenciamento do estoque com os produtos em suas vendas, pois é de fundamental importância mensurar a demanda e quantificar os custos de manutenção e obtenção de estoques.

2. Classificação ABC:

O princípio da classificação ABC ou curva 80-20 é atribuído a Vilfredo Paretto, um renascentista italiano do século XIX, que em 1897 executou um estudo sobre a distribuição de renda. Através desse estudo, percebeu-se que a distribuição de riqueza não se dava de maneira uniforme, havendo grande concentração de riqueza (80%) nas mãos de uma pequena parcela da população (20%).

O método da análise de classificação ABC é uma ferramenta que auxilia no gerenciamento de estoques, proporcionando informações relevantes sobre aqueles produtos que tem maior ou menor giro, relacionados com o custo de obtenção. É utilizada, também, para definição de política de vendas, planejamento da distribuição, programação da produção e resolução de uma série de problemas usuais de empresas industriais, comerciais ou de prestação de serviços. A curva ABC é uma ferramenta gerencial que permite identificar quais itens requerem atenção e tratamento adequados quanto à sua importância. Permite identificar itens prioritários quanto a ações de atenção, controle e redução de custos.

Normalmente as empresas utilizam-se da classificação ABC na administração de estoques, definição de política de vendas, estabelecimento de prioridades para a programação da produção e uma série de outros problemas comuns em uma empresa para melhor gerir seus estoques. Entretanto, esse conceito pode ser muito mais amplo, de acordo com a complexidade dos problemas e do grande número de fatores que fazem parte do processo.

No desenvolvimento de estratégias de uma empresa, BOWERSOX & CLOSS (2001) propõem três estágios a serem seguidos: 1) classificação dos produtos e mercados, 2) definição de estratégias por segmentos 3) operacionalização de políticas e parâmetros. O primeiro estágio refere-se à classificação dos produtos e mercados, que também pode ser chamada de classificação ABC, onde ocorre o agrupamento de produtos ou mercados de características similares, com a finalidade de melhor gerenciar os estoques. A classificação pode estar vinculada a vários fatores, tais como vendas, contribuição para o lucro, valor dos estoques e rotação de natureza do item.

Para SLACK et al (1997), a Lei de Pareto, além de ser usada no gerenciamento da produção, pode ser usada na classificação dos diferentes itens mantidos em estoques, permitindo aos seus gerentes focalizarem-se no controle dos itens mais significativos do estoque. A partir disso, os autores separam os produtos em três tipos de itens: A, B e C. Os itens classe A correspondem àqueles 20% de itens de alto valor que representam cerca de 80% do valor total do estoque; itens classe B são aqueles de valor médio, usualmente os seguintes 30% dos itens que representam cerca de 10% do valor total; itens classe C são aqueles itens de baixo valor que, apesar de compreender cerca de 50% do total de tipos de itens estocados, provavelmente somente representam cerca de 10% do valor total de itens estocados (MARTINS, 2001, p. 402).

Para ilustrar as etapas de montagem de uma curva ABC, temos abaixo o exemplo de um caso simplificado, com apenas doze itens, lembrando que o procedimento é válido para qualquer número de itens.

Medicamento

Quantidade

Preço unitário (R$)

Preço total (R$)

Custo acumulado (R$)

% acumulada

classe

imipenem

600

55,00

33.000,00

38.500,00

56

A

albumina

280

65,00

18.200,00

51.200,00

75

B

ceftriaxona

800

8,50

6.800,00

58.000,00

85

B

cefalexina

1800

1,80

3.240,00

61.240,00

89

B

vacomicina

400

8,70

3.480,00

64.720,00

94

C

soro fisiológico

500 mL

1800

1,20

2.160,00

66.880,00

95

C

dimeticona (gts)

120

4,50

540,00

67.420,00

96

C

dipirona (gts)

130

3,50

455,00

67.875,00

96

C

Tylex (30 mg, cps)

320

1,10

352,00

68.227,00

97

C

Diclofenaco sódico (inj)

320

0,80

256,00

68.483,00

98

C

propranolol (cps)

370

0,25

92,50

68.575,50

98

C

atenolol (cps)

150

0,40

60,00

68.635,50

100

C

Total

68.635,50

 

Conforme ilustrado na Figura 01, a curva de Paretto informa quais produtos são classificados como A, B ou C, em função do percentual cumulativo do valor total dos itens.

Figura 01: Curva de Paretto para itens em estoque.

Fonte: SLACK, Nigel; CHAMBERS, Stuart; HARLAND, Christine; HARRISON, Alan; JOHNSTON, Robert. 1997. Administração da produção. 1. ed. São Paulo: Atlas. (p. 403)

Essa é uma outra maneira de classificar os produtos em função de seus percentuais e, de acordo com estes resultados, o autor salienta que os produtos de classe A totalizam entre 10% e 20%, os itens da classe B, entre 30% e 40% e a maioria em torno de 50% pertence à classe C. Então, verifica-se que os itens da classe A devem receber uma maior atenção, pois de acordo com o desempenho obtido, a empresa poderá economizar com desperdícios de materiais, provenientes de gastos imprevistos, conforme Figura 01.

A definição das classes A, B e C obedece apenas aos critérios de bom senso e de conveniência dos controles a serem efetuados.

3. A criticidade dos produtos e sua relação com a análise ABC:

Em muitos casos, as empresas deparam-se somente com a classificação ABC, na qual o estoque é analisado de forma que o consumo seja confrontado com os valores monetários, resultando no custo total gasto pela empresa. Posteriormente, os itens são classificados de forma decrescente de importância. Entretanto, de acordo com MARTINS (2001), quando uma empresa não considera relevante a importância do item em relação à operação do sistema como um todo, este processo pode não ter seus resultados satisfatórios. Em um sistema produtivo, uma simples peça de baixo preço unitário e adquirida em pequenas quantidades, geralmente está classificada como um item do tipo C. Apesar disso, essa peça pode ser fundamental no processo de produção e, se por ventura ocorrer uma falha e essa peça faltar, a produção inteira é interrompida. Então a análise pelo custo unitário versus volume possui deficiências e para solucionar tal problema, MARTINS (2001) introduz a esta metodologia outra análise, que através da criticidade é explicada da seguinte maneira pelo autor: criticidade é a avaliação dos itens quanto ao impacto que sua falta causará na operação da empresa, na imagem da empresa perante os clientes, na facilidade de substituição do item por outro e na velocidade de obsolescência. (MARTINS, 2001, p. 165)

De acordo com MARTINS (2001), a criticidade também classifica os itens em três tipos A, B e C. Os itens da classe A são aqueles imprescindíveis, cuja falta provoca a interrupção da produção dos bens e serviços, a substituição é difícil e não possui um fornecedor alternativo. Na classe B estão incluídos os itens considerados importantes, cuja falta não acarreta efeitos na produção de bens e/ou serviços a curto prazo. A classe C é formada por todos os itens que restaram desta divisão. Para GIORDANI (2003), as empresas atualmente precisam se preocupar com o objetivo de seu negócio e atividades que não envolvem core business devem ser repassadas para empresas especialistas, fazendo parte assim, da cadeia logística. Segundo GIORDANI (2003), a previsibilidade se torna fator crucial no planejamento das empresas, pois estas devem adequar-se às características de cada tipo de material, fazendo com que a criticidade do produto final seja analisada e avaliada em função dos volumes de estoques, da política dos estoques e de quais fornecedores se vai comprar. Assim, faz-se necessário que a empresa identifique e avalie quais são os produtos mais importantes perante a demanda para que ela sempre tenha condições de atender ao cliente quando solicitada.

4. Planejamento da curva ABC:

O processo de estabelecimento da curva ABC inclui as seguintes etapas:

* Discussão preliminar sobre a necessidade da curva e definição de objetivos

* Verificação das técnicas de análise, tratamento dos dados

* Obtenção da classificação

* Análise e conclusões

* Providência e decisões finais

E se faz necessário:

* Pessoal treinado e preparado para realizar levantamentos

* Formulário para coleta de dados

* Normas e rotinas para o levantamento de dados

A uniformidade dos dados coletados é de primordial importância para a consistência das conclusões estabelecidas para a curva ABC, sobretudo quando os dados são numerosos.

5. Aplicação da curva ABC ao serviço de Farmácia:

A curva ABC, além de facilitar o controle do estoque – sendo possível definir programas de compras com os fornecedores dos produtos -, propicia um diagnóstico confiável do consumo de medicamentos dentro do hospital, permitindo sua comparação com o de outros hospitais, no Brasil e o exterior, quando aplicado a uma farmácia hospitalar. Já numa farmácia comercial, permite obter também o consumo desses medicamentos por seus clientes.

Na farmácia hospitalar, possibilita ainda a elaboração de programas de uso racional dos medicamentos da curva A, favorecendo a racionalização dos custos. Devemos lembrar que os antibióticos representam a grande maioria dos medicamentos dessa curva, juntamente com repositores hidroeletrolíticos e albumina.

A análise da curva ABC também auxilia na avaliação da padronização de medicamentos, sugerindo a exclusão de itens com pouca ou nenhuma saída.

6. Conclusões:

É inegável a utilidade da aplicação do princípio ABC aos mais variados tipos de análise nas quais se busca priorizar o estabelecimento dos itens mais ou menos importantes em um extenso universo de situações e, por conseqüência, estabelecer o que merece mais ou menos atenção por parte da administração, particularmente no que diz respeito às atividades de gestão de estoques.

Porém, a simples aplicação da classificação ABC sem considerar aspectos diferenciados inerentes aos materiais quanto à sua utilização e aquisição, poderá trazer distorções quanto à classificação de importância e estratégias de utilização dos mesmos.

7. Referências bibliográficas:

  • BOWERSOX, Donald J.; CLOSS, David J. Logística empresarial – o processo de integração

da cadeia de suprimento. São Paulo: Atlas. 2001

  • CAVALLINI, M. E.; Busson M. P. Farmácia Hospitalar: um enfoque em sistemas de saúde. São Paulo: 1ª ed. Editora Manole. 2002

  • GIORDANI, Mário. A solução é ter fornecedor fixo. Jornal do Comércio. Porto Alegre. 25

set. 2003.

  • MARTINS, Petrônio G.;. Administração de materiais e recursos patrimoniais. São Paulo:

Saraiva. 2001.

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