MARCAS SURDAS:Escola, família, associação, comunidade e universidade constituindocultura e diferença surdaSão Leopoldo2007

MARCAS SURDAS:Escola, família, associação, comunidade e universidade...

(Parte 1 de 5)

Vânia Elizabeth Chiella

Escola, família, associação, comunidade e universidade constituindo cultura e diferença surda

São Leopoldo 2007

Vânia Elizabeth Chiella

Escola, família, associação, comunidade e universidade constituindo cultura e diferença surda

Dissertação de Mestrado apresentada como requisito parcial à obtenção do titulo de Mestre em Educação, ao Programa de Pós-Graduação em Educação. Área de Ciências Humanas, Universidade Vale do Rio dos Sinos – UNISINOS.

Orientadora: Profª Drª Maura Corcini Lopes

São Leopoldo 2007

Se para Nietzsche o que sabemos e dizemos sobre o mundo e as coisas que estão nele é sempre uma questão de perspectiva – isso é, de que modo essa ou aquela perspectiva não só formata como podemos pensar, mas também informa o que podemos pensar –, para Wittgenstein tudo o que sabemos e dizemos é sempre uma questão pragmática - isso é, de que modo essa ou aquela forma de vida constitui ou engendra significados no seu próprio desenrolar vital. Em ambos, o que interessa é a vida, essa pulsação em constante mutação, e não a metafísica ou qualquer outra coisa que supostamente possa estar para além da vida... (Veiga-Neto 2004)

enho muito a agradecer. Foram muitas pessoas que direta ou indiretamente me ajudaram a concluir esta dissertação. Em primeiro lugar, quero agradecer ao meu amado companheiro Roque – juntos construímos a família que somos. Foi na diferença que ele torceu por mim. A minha família ajudou-me, dando condições para que eu conseguisse conciliar a vida profissional, a vida de estudante, a vida de militante e a construção desta pesquisa. Aprendemos todos com este tempo, até mesmo a dividir tarefas. Agradeço aos meus amados filhos, Fernando e Angelo, que vibraram comigo a cada nova etapa vencida na construção desta dissertação e que carinhosamente demonstram o orgulho de ver a mãe concluir este curso. As marcas desse tempo de pesquisa serviram para nos unir. Agradeço também à Terê por ter zelado por todos nós durante tanto tempo. Agradeço aos nossos amigos queridos de todas as horas, em especial, à Zaida e o Júlio, que desde o ingresso no curso de mestrado me acompanharam com paciência, respeitando os momentos em que eu não podia estar junto deles, principalmente aos finais de semana, quando o Roque carinhosamente preparava um novo “menu”. À Bianca, minha “norinha” querida, agradeço pelas palavras carinhosas e pelos beijinhos que me estimularam a continuar escrevendo, mesmo em meio à “balbúrdia” da casa. Agradeço também à Ana Carla, pela ajuda pessoal tão importante para que eu pudesse concretizar este curso e, especialmente, à Vitória, anjo das nossas vidas. Agradeço à Fernanda Chiella, a artista da família que produziu a capa deste texto. Tenho de agradecer aos meus colegas de trabalho da FADERS, especialmente aos companheiros de gestão, a Diretora Denise Marchetti e o Presidente Cláudio Petrucci, que foram solidários comigo neste momento final. Cada um a seu modo foi meu parceiro nos momentos em que tive de estar ausente na instituição. Agradeço à amiga Marilú, à Márcia, à Ângela, à Lisandra, ao Miro, ao Marcelo, ao Eduardo, à Andréia (parceira do EAD) e aos meus queridos colegas do CAS, Rejane, Patrícia, Luciano, Renatinha – agradeço a todos. Agradeço também aos diretores da FENEIS, o Ricardo e a Denise, pela parceria, e aos funcionários da FENEIS pela disponibilidade. Em especial, agradeço ao Marcelo Lemos pela amizade e parceria de tantos anos. Agradeço, ainda, aos surdos que gentilmente me disponibilizaram seus textos para que eu pudesse fazer esta pesquisa. Especialmente, quero agradecer às pessoas ligadas a este curso de mestrado. Agradeço à, Luciana Barthes que carinhosamente me ajudou nas minhas dificuldades com a informática. À Roberta Acorsi, que sempre foi tão prestativa e que muito me auxiliou alcançando textos e, na última hora, me socorreu com a revisão da formatação desta dissertação. Obrigada! Agradeço também à Lene, que, com competência e cuidado, revisou o texto desta pesquisa. Aos professores do PPGED da UNISINOS e também à secretaria do PPG, em especial, à Loi e à Saionara, agradeço pela atenção dispensada sempre que necessário. Às colegas do Grupo de Estudo e Pesquisa em Inclusão (GEPI), agradeço pela parceria intelectual. Em especial, queria agradecer à Rejane e à Maria Cláudia. Agradeço a todas as colegas do curso de mestrado, mas, de modo muito carinhoso, à Morgana, à Matilde e à Delci, pelo apoio incondicional em todos os momentos. Foi um tempo muito bom que vivemos juntas. Vou sentir saudades. Agradeço também ao Dr. Remi Klein e à Dra. Adriana Thoma, por quem tenho um carinho muito especial, por terem aceitado o convite para compor a banca de avaliação desta pesquisa, sendo que ambos tiveram um papel importante na finalização deste trabalho, em função das contribuições na ocasião da qualificação da proposta de dissertação. Propositalmente, deixo para o final os agradecimentos à minha querida orientadora. Em muitos momentos no curso do mestrado, já agradeci a ela pelo rigor, pela competência intelectual, pela seriedade, pela amizade e parceria com que conduziu a orientação desta pesquisa. Sem ela, eu não teria conseguido chegar até aqui. Obrigada, professora Maura!

RESUMO9
ABSTRACT10
PARTE I: A EXPERIÊNCIA VIVIDA1
APRESENTAÇÃO13
1. TRAJETÓRIAS DE VIDA ACADÊMICA, PROFISSIONAL E METODOLÓGICA17
1.1 DE MÃE A MILITANTE DA CAUSA SURDA20
1.2 AMARRAÇÕES METODOLÓGICAS36
SURDOS4
COMO MATERIAL DE PESQUISA49
CONSTRUÇÃO DAS CATEGORIAS ANALÍTICAS59
2 A CENTRALIDADE DA CULTURA: FORMAS DE VIVER A CONDIÇÃO DE SER SURDO70

SUMÁRIO 1.2. 1 AS PESQUISAS NA ÁREA DA EDUCAÇÃO, DA LINGÜÍSTICA E DA EDUCAÇÃO DE 1.2.2 APRESENTAÇÃO DAS PESQUISAS DE AUTORES SURDOS E SEU POSICIONAMENTO 1.2.3 NARRATIVAS SURDAS, A RETOMADA DAS QUESTÕES DE PESQUISA E O PROCESSO DE 2.2 A CULTURA E A DIFERENÇA SURDA..........................................................................75

2.3 COMUNIDADE SURDA: ESPAÇOS DE CONSTITUIÇÃO DA CULTURA79
2.3.1 FENEIS - ESPAÇO/LUGAR DE REPRESENTAÇÃO DA LUTA SURDA94

8 2.4. ASSOCIAÇÃO DE SURDOS E COMUNIDADE: ESPAÇO DE LUTA E DE PRODUÇÃO DA

DIFERENÇA SURDA101
DIFERENÇA SURDA

Parte I: ARTICULAÇÃO DE CONCEITOS E ENREDAMENTO DE MARCAS CULTURAIS NA 107

SURDO109
3.1 ESCOLA DE OUVINTE E ESCOLA DE SURDOS – O QUE ELAS TÊM EM COMUM121
3.3 ESCOLA E UNIVERSIDADE ESTÃO PEDAGOGIZANDO A COMUNIDADE SURDA?137
CONSIDERAÇÕES FINAIS143
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS147

A presente dissertação tem por objetivo analisar e problematizar marcadores culturais surdos. Para tanto, foram selecionadas teses de doutorado, dissertações de mestrado e propostas de dissertação escritas em português por sujeitos surdos militantes da política surda. A escolha dos materiais de pesquisa deu-se a partir da observação de que os surdos, ao escreverem, trazem histórias de vida que nos permitem ver alguns elementos próprios da comunidade surda. Ancorada nos Estudos Culturais de inspiração pós-estruturalista e no campo dos Estudos Surdos, foi possível definir algumas ferramentas conceituais que operavam nas narrativas surdas sobre si. Em tais narrativas, a escola, a comunidade, a associação, a família e a universidade apareceram como espaços de constituição de marcas surdas. As marcas culturais que vi constituindo a diferença surda a partir da categoria de análise do espaço/lugar foram a surdez, a luta, a nostalgia de ser surdo, a presencialidade, a temporalidade surda, a língua de sinais, o olhar e o constrangimento surdo. No final da pesquisa, é possível fazer uma provocação aos interessados na área para que as discussões acerca da diferença surda e sobre como ela aparece traduzida e reduzida no currículo escolar sejam retomadas, considerando-se a experiência de ser surdo.

Palavras-chave: narrativa – cultura – diferença – marcas culturais

The present research aims at both analyzing and problematizing deaf cultural markers. In order to do that, I have selected doctorate theses, master’s dissertations, and dissertation projects written in Portuguese by deaf subjects who have struggled for the deaf policy. The selection of the research materials has been based on the observation that deaf individuals bring life histories to their writings, which enable us to see some elements that are characteristic of the deaf community. Grounded on the Cultural Studies, with post-structuralist inspiration, as well as on Deaf Studies, I have been able to define some conceptual tools that operate in the deaf narratives about the self. In such narratives, school, community, association, family, and university have emerged as places for the constitution of deaf marks. The cultural marks that I have seen as constituting the deaf difference from the analysis category called space/place are deafness, struggle, nostalgia of being deaf, presentiality, deaf temporality, sign language, sight, and deaf embarrassment. At the end of this research, it was possible to provoke those who are interested in this area so that discussions about the deaf difference and about the way it has appeared both translated and reduced in the school curriculum are resumed, considering the experience of being deaf.

Key Words: narrative – culture – difference – cultural marks.

1 PARTE I

Nós surdos nascemos num povo de ouvintes e nos transformamos em surdos. A experiência é este processo que nos passa (Larrosa) e leva a ser o outro surdo. Tudo parte de uma reflexão geral sobre o que o termo surdo dá a entender. Ser surdo numa palavra parece simplesmente se desenrolar. Então parece que o que define o processo de ser surdo não especifica por tempo de formação, de transformação, mas o ato de estar sendo surdo agora. Mas existe o ato de transformação que se desenrola continuamente numa temporalidade, a partir da experienciação do estar sendo surdo (PERLIN, 2003, p. 101)

título A experiência, que abre a primeira parte desta dissertação, foi inspirado na epígrafe que abre este primeiro capítulo. Coloquei-me no texto de diferentes formas. Narro como construí este texto fazendo rupturas no caminho e assumindo uma nova forma de olhar para os surdos, para a surdez e para a vida na contemporaneidade. Confesso que estou imbricada no texto desta pesquisa, tanto pela experiência vivida junto aos surdos quanto pela experiência pensada na academia. Assim como Perlin (2003), que se coloca no texto da epígrafe de abertura deste primeiro capítulo, entendo a experiência como aquilo que nos leva a ser.

A dissertação que apresento foi organizada em duas partes. A primeira, chamei de A

Experiência, numa analogia com a forma como construí a primeira parte do Capítulo 1, partindo da narrativa da minha experiência de vida. Essa parte da dissertação compõe-se de dois capítulos.

No Capítulo 1, Trajetórias de vida acadêmica, profissional e metodológica, apresento a trajetória que fiz me aproximando da surdez – entendendo-a como deficiência – como mãe de surdo, como professora especialista em educação de surdos, como intérprete de LIBRAS e mais tarde como militante da causa surda e iniciante na pesquisa no campo dos Estudos Surdos em Educação. Mostro como vou fazendo rupturas nessa trajetória constituída na cultura surda e passo a olhar a surdez como uma materialidade no corpo surdo. Narro os caminhos que fiz até aproximar-me dessa compreensão da surdez. Mostro que fui instigada a problematizar a temática da cultura surda, por problematizar discursos que circulam definindo a cultura surda, os surdos e a surdez.

As questões de pesquisa que montei a partir de minhas leituras e a partir de minha problematização do que já existia na área da educação de surdos são: • Como marcas culturais podem ser lidas nas narrativas surdas, escritas em português, quando os surdos falam de si? • Como vão se enredando saberes sobre os surdos e sendo articulados espaços onde estes se colocam para narrarem-se? • Como a diferença surda vai se constituindo a partir de tais marcadores?

• Como boa parte das narrativas surdas é feita a partir de lembranças escolares, como práticas escolares aparecem marcando os indivíduos surdos?

Vou articulando, na trajetória de pesquisa, as trilhas que percorri na construção do tema a ser estudado, ou seja, os elos identitários da cultura surda – as marcas culturais que constituem a diferença surda. Descrevo os caminhos que fiz na vida profissional e o movimento que fiz na academia e enquanto estive cursando as disciplinas do curso de mestrado na UNISINOS, partilhando de leituras que me aproximaram do pensamento de autores inscritos no campo dos Estudos Culturais de perspectiva pós-estruturalista e do campo dos Estudos Surdos em Educação. Esses autores, de modo específico, incitaram-me a olhar os surdos dentro de um outro registro, ou seja, como sujeitos constituídos pela linguagem e pelo viés culturalista.

no curso de mestrado, outros saberes sobre eles

Esclareço que, embora me inspire na experiência pessoal, não dou um tom autobiográfico ao texto, tampouco faço desta narrativa um resgate histórico na minha relação com a surdez e os surdos. Ao contrário, inspirei-me na contingência de acontecimentos que permearam minhas relações com os surdos e na forma como construí,

Narro também como me coloquei ao longo da construção teórica e metodológica desta pesquisa, relatando de forma detalhada como defini o material de pesquisa – narrativas surdas de si –, selecionado de textos escritos em português – teses de doutorado, dissertações de mestrado e projetos de dissertação – escritos por um grupo de surdos escolhidos intencionalmente para que tivessem em comum a causa surda na sua militância – e que, de modo geral, estivessem ligados à Federação Nacional de Educação e Integração dos Surdos (FENEIS).

No mesmo subtítulo do capítulo em que faço as amarrações metodológicas, apresento a revisão bibliográfica. Mostro como me aproximei de pesquisas sobre a temática da surdez e de outras pesquisas que, apesar de não serem da área, têm em comum com a minha pesquisa a perspectiva teórica em que estão inseridas. Nessa parte, apresento também as pesquisas dos autores surdos, posicionando-as como material, e retomo as questões de pesquisa e o processo que fiz na construção das categorias analíticas.

Mostro o campo teórico metodológico em que me movimento e as ferramentas analíticas – discurso e narrativa. Apresento, ainda, como os conceitos de cultura, comunidade e diferença aparecem operando no material de pesquisa, dando sentido ao que estava sendo enunciado nas narrativas surdas de si.

No Capítulo 2, denominado A centralidade da cultura: formas de viver a condição de ser surdo, aprofundo a discussão sobre os diferentes modos como podemos nos colocar para falar sobre os conceito de cultura e de diferença. Exploro também, nessa parte do texto, as primeiras categorias analíticas que encontrei, apresentando-as por meio da análise do corpus da pesquisa. Esse primeiro agrupamento de categorias é o espaço/lugar da escola, da família, da comunidade, da universidade e da associação. Essas categorias, articuladas com as categorias analíticas finais, estão permeando esta pesquisa. As categorias finais que identifiquei são: marcas culturais, presencialidade, olhar, temporalidade, surdez, língua de sinais, luta, nostalgia surda e constrangimento. Nessa parte do texto, exploro um pouco mais os espaços da comunidade articulados às marcas surdas.

A Parte 2 – Articulação de conceitos e enredamento de marcas culturais na diferença surda – está estruturada com o Capítulo 3 e as considerações finais. Retomo, nessa parte da dissertação, a reflexão sobre o papel da linguagem e o uso que faço dos conceitos de discursos e enunciado num sentido dado por Foucault. Exploro também o espaço/lugar da escola de surdos e da escola especial, articulado com as marcas culturais. Problematizo, ainda, o modo como a escola de surdos tem se colocado na atualidade para ver as políticas inclusivas na educação de surdos, o que, a meu ver, está provocando um apagamento da comunidade surda. Também procuro provocar o leitor para que retomemos as discussões sobre o papel do currículo escolar no contexto da educação de surdos, olhando as marcas culturais, algo que parece não estar acontecendo na atualidade. São conversas importantes que, num contexto histórico específico, foram estimuladas pelo Núcleo de Pesquisas em Políticas Educacionais para Surdos (NUPPES) e pelo movimento político dos surdos – representado pela Federação Nacional de Educação (FENEIS). Nesse sentido, provocaram algumas rupturas com as escolas especiais. Sugiro que sejam repensadas essas questões. A provocação que faço é por entender certa inércia nas discussões junto às escolas de surdos.

Encaminho-me para as considerações finais sobre a pesquisa, colocando as minhas dificuldades, ganhos e experiência de tornar-me pesquisadora. Retomo as questões de pesquisa, provocando o leitor a continuar essa conversa...

CAPÍTULO I 1. TRAJETÓRIAS DE VIDA ACADÊMICA, PROFISSIONAL E METODOLÓGICA

A experiência é o que nos passa, ou o que nos acontece, ou o que nos toca. Não o que passa ou o que acontece, ou o que toca, mas o que nos passa, o que nos acontece ou nos toca. A cada dia passam muitas coisas, porém, ao mesmo tempo, quase nada nos passa. Dir-se-ia que tudo o que passa está organizado para que nada nos passe (LAROSSA,2004,p.154).

ssim como Jorge Larrosa1, entendo este momento que vivemos na contemporaneidade pela sensação de que “tudo o que passa está organizado para que quase nada nos passe”. Vivemos em tempos atribulados, por vezes marcados por sensações de medo, angústias, depressões, incertezas e inseguranças.

Numa nova ordem política global, que está sendo chamada por alguns autores de

Império2 e que conduz a massa consumidora como num concerto global, assistimos ao espaço local se expandir e ao tempo se comprimir numa sensação que nos sufoca – seja pelo excesso de informações, seja pelo “sem tempo” cronológico para acertarmos nossas

1 Usarei o nome completo do autor ou autora sempre que estiver citando-os pela primeira vez neste texto. 2 Michel Hardt e Antonio Negri (2004, p.1) discutem a constituição política do presente, dando ênfase à lógica do império, que, segundo eles, “está se materializando diante de nossos olhos”.

contas com as “dívidas” acadêmicas, profissionais, sociais e familiares. Narrar acontecimentos requer que se reflita sobre a experiência, aquilo que nessa “overdose” de informações nos passa. Aquietar-se, pausar e refletir sobre a organização da vida é necessário.

Mostro, neste texto da dissertação de mestrado, como me coloquei ao longo do curso de mestrado e na minha trajetória pessoal para olhar o sujeito surdo e o modo como abandonei a idéia de relacioná-lo com o discurso sobre a surdez numa concepção clínica. Explico, no primeiro capítulo, como hoje vejo a surdez, sem ter de relacioná-la com a falta de audição e/ou a deficiência auditiva. Da mesma forma, narro como compreendi que alguns sujeitos surdos se vêem e se declaram pertencentes a um grupo de surdos que luta para ser reconhecido como tal e que a surdez, para eles, nesse sentido, passa a ser uma marca primeira, ou seja, um traço que permite, entre outros, a construção de elos identitários.

Sei também que, para quem não está tão próximo da discussão acerca do que signifique ser surdo, a deficiência auditiva e a surdez parecem querer dizer a mesma coisa. O abismo que se coloca entre aqueles que se narram como sendo deficientes auditivos3 e aqueles que se narram como sendo surdos é imenso. Enquanto os primeiros lamentam não serem ouvintes, os últimos proclamam a sua diferença, inscrevendo-a nos debates culturalistas.

Procuro entrelaçar a essa compreensão a forma como percorri o caminho acadêmico e mostro os atravessamentos que tive nesse meu percurso das leituras que fiz, do pensamento dos autores de quem me aproximei nessa trajetória, bem como, por que não dizer, da minha experiência pessoal e da minha vida profissional com surdos.

3 Não fiz distinção do conceito de surdo e de deficiente auditivo pelo grau de perda auditiva. A relação que tracei do conceito de deficiente auditivo para nomear os sujeitos identificados e narrados pela cultura dos que ouvem e oralizam foi no sentido de fazer uma aproximação daqueles sujeitos que, a meu ver, num esforço artificial, lutam para compreender a oralidade por meio da leitura labial. Também entendi que os deficientes auditivos se encorajam para manter um diálogo oral e interagir com a sociedade dos ouvintes. Dessa forma, os sujeitos que se identificam com a cultura do som não partilham da convivência com a comunidade surda, nem reivindicam as práticas comuns de acessibilidade vivenciadas pelos sujeitos surdos que se identificam pela língua de sinais, pela presencialidade, pelo olhar surdo, como, por exemplo, o intérprete de LIBRAS em universidades, seminários, congressos, consultas médicas, etc. Sendo assim, não utilizam a língua de sinais como os surdos, nem compartilham da experiência visual, característica própria do sujeito surdo que se reconhece na cultura surda.

Considero fundamental situar, talvez para que eu mesma possa organizar melhor a condução da construção do texto desta dissertação de mestrado, o modo como fui me despindo de idéias universalizantes e como, ao longo dessa construção, rompi com um olhar rígido, estável e centrado no sujeito e na “essência do que é ser surdo”. Hoje, tenho claro que esse era o único foco que eu tinha ao olhar para a educação e para os surdos; era a única perspectiva com que eu via o mundo.

A diferença de olhar que assumi na construção desta dissertação está fundada numa concepção culturalista não-essencialista. Isso me ajudou a compreender e a ler melhor a minha experiência com os sujeitos surdos. Abandonei, no percurso, a idéia de totalidade e o juízo de que havia uma “essência” no sujeito e, nesse sentido, um universal de direitos humanos; compreendi que as regras são constantemente feitas e refeitas.

Segundo Marisa Vorraber Costa (2005, p.212,213), “Tudo que sabíamos sobre nós, os outros e o mundo foi produzido no marco de uma ordem científica asséptica, previsível, cartográfica, que engessava nosso olhar e nosso entendimento”. Hoje Compreendo que essa visão de mundo sustenta o “ideal” de um “futuro” previamente traçado, estável e com promessas de “progresso” – que se fundamenta em “verdades” que foram sustentadas pelo Projeto da Modernidade, e são apoiadas pelas instituições consideradas como pilares do pensamento moderno: o Estado, a Família e a Escola.

As rupturas que fiz ajudaram-me a compreender melhor a sensação de “caos” e instabilidade que instigava a minha própria existência e me desestabilizava quando eu não conseguia “responder” as perguntas que me atravessavam em relação aos sujeitos surdos e sua “cultura surda”. Busco argumento para isso nas palavras de Alfredo Veiga-Neto:

Afinal, mais do que nunca estamos nos dando conta de que a promessa moderna de conseguirmos administrar, programar e controlar efetivamente o devir – o que levou o pensamento moderno a reduzir o devir ao futuro – não se cumpriu e não poderá se cumprir. (VEIGA-NETO, 2006, p.2)

É com esse pensamento e dessa forma que fui ajustando a lente que utilizei e que fui me adaptando a essa maneira diferente de olhar para os sujeitos surdos e para as práticas escolares na educação. É um modo que fui compreendendo esta baseado em rupturas. Uma necessária desestabilização organizou o pensamento e guiou-me nesta trajetória por caminhos antes não traçados – uma possibilidade diferente de olhar para a educação e para cultura dos surdos.

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