Malthus e Ricardo: duas visões de economia política e de capitalismo

Malthus e Ricardo: duas visões de economia política e de capitalismo

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Malthus e Ricardo: duas visões de economia política e de capitalismo cadernos idéiasI UH

Reitor Aloysio Bohnen, SJ

Vice-reitor Marcelo Fernandes de Aquino, SJ

Instituto Humanitas Unisinos

Diretor Inácio Neutzling, SJ

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Cadernos IHU Idéias Ano3–N º3 9– 2005 ISSN: 1679-0316

Editor Prof. Dr. Inácio Neutzling – Unisinos

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Cadernos IHU Idéias: Apresenta artigos produzidos pelos convidados-palestrantes dos eventos promovidos pelo IHU.Ad iversidade dos temas, abrangendo as mais diferentes áreas do conhecimento, é um dado a ser destacado nesta publicação, além de seu caráter científico e de agradável leitura.

Gentil Corazza

Introdução

Na visão de Schumpeter, o pensamento econômico não evolui de modo linear e uniforme, de acordo com uma “seleção natural” dos melhores autores e idéias, que se afirmam como corretos ou verdadeiros. Ao contrário, evolui aos saltos, através de períodos de revoluções, consolidação e crises de idéias e teorias.

Nessa perspectiva, a história do pensamento econômico não deve ser vista como uma história de autores ilustres, de suas vidas, suas obras e suas contribuições pessoais à descoberta de uma “verdade científica”. Como afirmam Screpanti e Zamagni (1997), a economia não evolui de forma “darwiniana”, percorrendo um caminho único, de modo que o último livro de texto tenha incorporado toda verdade precedente. A ciência econômica, ao contrário, percorre vários caminhos na forma de um leque de teorias paralelas e concorrentes entre si.

Nesse sentido, a economia política clássica não pode ser considerada uma teoria morta e superada pelas teorias mais recentes, ela continua viva, ao lado de outras, antigas e modernas, como uma fonte permanente de inspiração para as questões atuais do capitalismo.

A economia política clássica inglesa abrange o período de, aproximadamente, cem anos, entre 1750 e 1850. Entre Adam Smith, que foi seu fundador, e John Stuart Mill, seu último grande representante, Thomas Robert Malthus e David Ricardo situam-se numa fase intermediária, por volta da segunda e terceiradécadasdoséculodezenove,erepresentamummomentode auge e de crise de uma forma de pensar a economia capitalista. Após a morte de Ricardo e de Malthus, proliferam muitas correntes de pensamento, umas reagindo e contestando os princípios desses dois autores, como os socialistas utópicos, os anti-ricardianos e os românticos da escola histórica alemã, outras se apegando e defendendo algum aspecto de sua teoria como os socialistas ricardianos.

No período entre a publicação da Riqueza das Nações,d e

Smith (1776), e dos Princípios de Economia Política e Tributação, de Ricardo (1817), há um grande vácuo teórico de mais de 40 anos. Da mesma forma, veio a ocorrer outro semelhante depois de Stuart Mill (1848) até o início do pensamento neoclássico, com Marshall (1973). Este último vazio foi preenchido pela elaboração mais madura do pensamento crítico de Marx, com a publicação do primeiro volume de O Capital, em 1867.

Os temas fundamentais da economia política clássica foram: o crescimento econômico a longo prazo, a acumulação de capital, a centralidade do trabalho, a distribuição da renda entre as classes sociais, a descoberta e a afirmação de leis econômicas como “leis naturais” da economia e a defesa do credo liberal, que logo foi se transformando no fundamento ideológico da economia política.

Énessecontextohistóricoeteóricoqueseinserenossaanálise do pensamentode Malthuse de Ricardo.Depois desta introdução, faremos uma apresentaçãoda obra de Malthus, na qual destacamosduas questõescentrais:primeiro,o problemaeal ei da populaçãoe, depois,o problemada demandaefetiva.Em Ricardo,procuramosanalisar,primeiro,o seu modeloagrícolae as contradições do desenvolvimento econômico, depois, suas leis de equilíbrio e a defesa do livre comércio internacional. Após a apresentaçãodopensamentodosdoisautores,procuraremosfazerumaanálisecomparativaentreambos.Naconclusão,tentaremos destacaralguns pontos de atualidadede seu pensamento.

1. A teoria da população de Malthus – realidade, ideologia e ciência

Thomas Robert Malthus nasceu em 1766, e morreu em 1834. Era filho de família rica e erudita. Seu pai, Daniel Malthus, proprietáriorurale advogado,eraamigodeHumee de Rousseau. Thomas Robert fez seus estudos em letras e matemática em Cambridge. Mais tarde, depois de diplomar-se, entrou para o ministério da Igreja Anglicana e assumiu a direção de uma paróquia. Em 1805, foi nomeado professor de Economia Política no East India College de Heileyburry. Ajudou a criar o Clube de Economia Política, em 1821, e a Real Sociedade de Estatística, em 1834. Ele foi um ativo participante do debate das questões polêmicas de seu tempo.

A teoria da população de Malthus pode, mais facilmente, ser entendida com base na realidade social de sua época e da repercussão das obras de Goodwin e de Condorcet, que propunham soluções para o grave problema da pobreza decorrente da Revolução Industrial.

Com efeito, a realidade social decorrente da Revolução Industrial, no final do século XVIII, era muito preocupante e desa-

2 Gentil Corazza fiava intelectuais, políticos e governantes. Os efeitos sociais da industrialização eram agudos: desemprego, pobreza, doenças, habitações precárias, transformações no campo, êxodo agrícola e migração populacional para as cidades, provocando oferta abundante de mão-de-obra e queda dos salários. Os registros históricos são dramáticos: jornadas de 18 horas para mulheres e crianças, promiscuidade social, epidemias, doenças e mortes.

Por sua vez, as “leis dos pobres”, que garantiam o auxílio à população carente, começavam a ser contestadas pela classe proprietária de terras e pelos capitalistas industriais, devido aos seus elevados custos e aos obstáculos que criavam para a formação do mercado de trabalho, restringido a mobilidade da mão-de-obra. Tanto Ricardo quanto Malthus defendiam a revogação dessas leis.

Ao mesmo tempo, o fermento das idéias revolucionárias vindas da França encontrava terreno fértil entre os pobres e contestadores sociais na Inglaterra. A reação da classe proprietária e dos ricos foi a de negar qualquer responsabilidade sua pela pobreza generalizada. Os pobres eram considerados como os maiores responsáveis pela sua pobreza e eles mesmos é que deveriam encontrar a solução para ela.

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