Dermatologia na Atenção Básica de Saúde

Dermatologia na Atenção Básica de Saúde

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Brasília 2002

Ministério da Saúde

Secretaria de Políticas de Saúde Departamento de Atenção Básica Área Técnica de Dermatologia Sanitária

Dermatologia na Atenção Básica de Saúde

Cadernos de Atenção Básica Nº 9 Série A - Normas de Manuais Técnicos; n° 174

2002. Ministério da Saúde. 1 Edição - 2002 É permitida a reprodução parcial ou total desta obra, desde que citada a fonte.

Série Cadernos de Atenção Básica; n. 09 - DAB Série A. Normas e Manuais Técnicos; n. 174 - MS

Distribuição de informações: Ministério da Saúde. Secretaria de Políticas de Saúde Departamento de Atenção Básica Área Técnica de Dermatologia Sanitária Esplanada dos Ministérios, Bloco G, 6 andar 70.058-900 - Brasília/DF

Tiragem: 30.0 exemplares Impresso no Brasil / Printed in Brazil

Produzido e impresso com recursos do Projeto Atenção Básica/Unesco - 914BRZ29

Editores Gerson Oliveira Penna Maria da Glória Teixeira

Colaboradora Maria da Conceição Nascimento Costa

Autores Gerson Oliveira Penna - Universidade de Brasília - HUB, Maria da Glória Teixeira - Universidade Federal da Bahia, Gerson Fernando Mendes Pereira - Ministério da Saúde, Iphis Campbell - Universidade de Brasília - HUB, Jesus Rodriguez Santamaria - Universidade Federal do Paraná, Maria Bernadete Rocha Moreira - Ministério da Saúde, Márcio Lobo Jardim - Universidade Federal de Pernambuco Silmara C. P. Cestari - Universidade Federal de São Paulo, Sinésio Talhari - Universidade Federal da Amazônia, Silvio A. Marques - Universidade Estadual Paulista - Botucatu e Sebastião de A. P. Sampaio - Responsável pelo Glossário Dermatológico

Editoração e Projeto Gráfico Edite Damásio da Silva

Revisão de Texto Alberico Carvalho Bouzón

Apoio: ILEP - International Federation of Anti Leprosy Association

Ministro de Estado da Saúde Barjas Negri

Secretário de Políticas de Saúde Cláudio Duarte da Fonseca

Diretora do Departamento de Atenção Básica Heloiza Machado de Souza

Coordenador da Área Técnica de Dermatologia Sanitária Gerson Fernando Mendes Pereira

Catalogação na fonte - Editora MS FICHA CATALOGRÁFICA

NLM WR 100

Dermatologia na Atenção Básica / Ministério da Saúde, Secretaria de Políticas de Saúde.- 1ª edição. -

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Políticas de Saúde. Departamento de Atenção Básica. Brasília: Ministério da Saúde, 2002.

142p.:il. - (Série Cadernos de Atenção Básica; n. 09) - ( Série A. Normas e Manuais Técnicos; n. 174) ISBN 85-334-0510-3

1. Dermatologia. I. Brasil. Ministério da Saúde. I. Brasil. Secretaria de Políticas de Saúde. Departamento de Atenção Básica. I. Título. IV. Série.

Apresentação
Prefácio
Introdução
Aids
Anthrax ou Carbúnculo
Cancro Mole
Candidíase
Dengue
Dermatite da Área de Fraldas
Doença de Lyme
Ectima
Eczemas
Erisipela
Escabiose
Estrófulo
Foliculites
Furúnculo
Gonorréia
Hanseníase
Herpes Simples
HPV
Impetigo
Larva Migrans
Leishmaniose Tegumentar Americana
Miíase
Molusco Contagioso
Paracoccidioidomicose
Pediculoses
Pitiríase Alba
Pitiríase Versicolor
Rubéola Congênita
Sarampo
Sífilis / Sífilis Congênita
Tinha do Corpo
Tinha do Couro Cabeludo
Tinha dos Pés
Tuberculose Cutânea
Tungíase
Urticária
Varicela / Herpes Zoster
Verrugas
Recomendações para Uso de Corticosteróides
Glossário Dermatológico
Documentação Fotográfica
Bibliografia Consultada

O presente Guia é especialmente destinado aos profissionais que atuem na atenção básica de saúde, cuja reorganização e fortalecimento constituem uma prioridade do Ministério da Saúde. Tal prioridade leva em conta, em especial, a capacidade resolutiva desse nível, mediante a qual é possível responder à maioria dos problemas demandados pela população, bem como a sua importância na conformação da rede regionalizada e hierarquizada, fundamental para a integralidade da atenção à saúde.

Esta publicação é uma edição revista e ampliada do Guia para o Diagnóstico e Tratamento das Principais Dermatoses da Infância de Interesse Sanitário, na qual são abordados diferentes e estratégicos aspectos de cada agravo, desde a sua respectiva descrição, sinonímia, etiologia, reservatório, modo de transmissão, períodos de incubação e transmissão, até o diagnóstico, tratamento, vigilância epidemiológica e medidas de controle.

Trata-se, assim, de instrumento da maior relevância para o manejo dos pacientes com doenças de pele, configurando-se um importante auxílio aos profissionais na sua prática diária, tanto para aqueles que integram as equipes de saúde da família, quanto àqueles que atuam em toda a rede básica.

Ao tornar disponível este Guia, o Ministério da Saúde acredita estar contribuindo também para que a atenção básica de saúde no País atinja, com qualidade e de forma plena, a sua ampla capacidade de resposta às necessidades de saúde da população.

Cláudio Duarte da Fonseca Secretário de Políticas de Saúde

A reorientação das ações de controle das doenças dermatológicas de interesse sanitário, para a assistência fundamentalmente vinculada à atenção básica à saúde, norteou a decisão da Secretaria de Políticas de Saúde, do Ministério da Saúde, em encomendar para a sua área técnica a revisão e ampliação do Guia para o Diagnóstico e Tratamento das Principais Dermatoses da Infância de Interesse Sanitário transformando-o em Dermatologia na Atenção Básica à Saúde, visando atender às necessidades de um número expressivo de profissionais de saúde, na linha de frente dessas situações, distribuído em todo o território nacional nas Equipes de Saúde da Família.

E é com esse intuito que a Secretaria de Políticas de Saúde entrega para a Rede Básica de

Saúde este documento que, temos certeza, será um importante auxílio no manejo dos pacientes com doenças de pele em nossa população.

Heloiza Machado de Souza Diretora do Departamento de Atenção Básica

A transformação do Guia para o Diagnóstico e Tratamento das Principais Dermatoses da Infância de Interesse Sanitário para Dermatologia na Atenção Básica à Saúde, vem atender a uma expressiva demanda dos profissionais da rede básica de saúde, uma vez que as doenças de pele continuam figurando entre as três primeiras causas de demanda aos serviços de saúde. Esta edição, revisada e ampliada, vem atender além das crianças, a população de qualquer faixa etária.

É importante lembrar que a pele é o maior órgão do corpo humano, uma barreira importante entre nosso organismo e o meio exterior. Além de ser capaz de despertar sensações, expressa um sem número de significativos sinais e sintomas, que são de auxilio fundamental na identificação de doenças.

As doenças que acometem a pele podem estar restritas a ela ou, por vezes a pele expressa sinais e sintomas como a primeira manifestação, ou manifestação tardia de doenças sistêmicas.

Não menos importante é lembrar que o exame físico da pele deve ser feito sob iluminação adequada, preferentemente sob luz natural e quando não for possível sob luz fluorescente. Deve-se valorizar sinais com alteração da cor (acromia, hipocromia, hipercromia, eritema...), com alteração da espessura (atrofia, hiperceratose...), a presença ou ausência de sintomas como prurido, dor e ardor. Todos são elementos auxiliares no diagnóstico e conseqüente instituição da terapêutica adequada.

Esse guia não tem a pretensão de ser um compêndio dermatológico, tem somente a intenção de servir de auxilio aos colegas profissionais de saúde, ratificando que por vezes os mecanismos de Referência e Contra Referência poderão e deverão ser acionados para atender os pacientes que necessitarem de assistência especializada.

Além do agradecimento aos editores e autores, registro de forma especial o agradecimento ao Centro Nacional de Epidemiologia e a Fundação Alfredo da Mata, pelo material cedido para composição de parte desse material.

Registro ainda a preocupação da ATDS em selecionar dermatologistas experientes, de algum modo ligados à área de Saúde Pública e com representatividade de todas as regiões do país, com vistas a conferir visão epidemiológica nacional ao guia.

Três capítulos finais foram incluídos de modo a auxiliar na utilização deste Guia no campo, são eles:

•Recomendações para Uso de Corticosteróides

• Glossário Dermatológico

• Documentação Fotográfica

Gerson Fernando Mendes Pereira Coordenador da Área Técnica de Dermatologia Sanitária

11Dermatologia na Atenção Básica de Saúde Cadernos da Atenção Básica

DESCRIÇÃO: doença caracterizada por uma disfunção grave e progressiva do sistema imunológico do indivíduo infectado pelo vírus da imunodeficiência humana (HIV). Sua evolução pode ser dividida em 3 fases: infecção aguda, que pode surgir algumas semanas após a infecção inicial, com manifestações como febre, calafrios, sudorese, mialgias, cefaléias, dor de garganta, sintomas gastrointestinais, linfadenopatias generalizadas e erupções cutâneas. A maior parte dos indivíduos apresenta sintomas auto-limitados que desaparecem após algumas semanas. Entretanto, a maioria não é diagnosticada devido à semelhança com outras doenças virais. Em seguida, o paciente entra em uma fase de infecção assintomática, de duração variável de alguns anos. A doença sintomática, da qual a aids é a sua manifestação mais grave, ocorre na medida em que o paciente vai apresentando alterações mais acentuadas da imunidade, com o surgimento de febre prolongada, diarréia crônica, perda de peso importante (superior a 10% do peso anterior do indivíduo), sudorese noturna, astenia e adenomegalia. As infecções oportunistas passam a surgir ou recidivar, tais como tuberculose, pneumonia por Pneumocistis carinii, toxoplasmose cerebral, candidíase oroesofágica, meningite por criptococos e retinite por citomegalovírus, dentre outras. Tumores raros em indivíduos imunocompetentes, como o Sarcoma de Kaposi e certos tipos de linfoma, podem surgir, caracterizando a aids. A ocorrência de formas graves ou atípicas de doenças tropicais, como paracoccidioidomicose, leishmanioses e doença de Chagas, tem sido observada no Brasil.

SINONÍMIA: SIDA, aids, doença causada pelo HIV, Síndrome da Imunodeficiência Adquirida.

ETIOLOGIA: vírus RNA. Retrovírus atualmente denominado como Vírus da Imunodeficiência Humana (HIV), com 2 tipos conhecidos: o HIV-1 e o HIV-2. Antes de 1986, era denominado como HTLV-I/LAV.

RESERVATÓRIO: o homem.

MODO DE TRANSMISSÃO: sexual, sangüínea (via parenteral) e da mãe para o filho, no curso da gravidez, durante ou após o parto e pelo aleitamento materno no período pós parto. São fatores de risco associados aos mecanismos de transmissão do HIV: variações freqüentes de parceiros sexuais sem uso de preservativos; presença de outras DST concomitantes, utilização de sangue ou seus derivados sem controle de qualidade; compartilhamento ou uso de seringas e agulhas não esterilizadas (como acontece entre usuários de drogas injetáveis); gravidez em mulher

AIDSCID-10: B20 A

12Dermatologia na Atenção Básica de Saúde Cadernos da Atenção Básica infectada pelo HIV; e transplante de órgãos ou recepção de sêmen de doadores infectados. É importante ressaltar que o HIV não é transmitido pelo convívio social ou familiar, abraço ou beijo, alimentos, água, picadas de mosquitos ou de outros insetos.

PERÍODO DE INCUBAÇÃO: é o período compreendido entre a infecção pelo HIV e a fase aguda ou aparecimento de anticorpos circulantes. Na grande maioria dos pacientes esse período varia entre 1 e 3 meses após o contato infeccioso, podendo ocasionalmente chegar a 6-12 meses em alguns poucos casos relatados na literatura médico-científica.

PERÍODO DE LATÊNCIA: é o período compreendido entre a infecção pelo HIV e os sintomas e sinais que caracterizam a doença causada pelo HIV (aids). As medianas desse período estão entre 7 e 12 anos, dependendo da via de infecção envolvida.

PERÍODO DE TRANSMISSIBILIDADE: é variável, mas o indivíduo infectado pelo HIV pode transmitir durante todas as fases da infecção, sendo esse risco proporcional à magnitude da viremia e presença de outros co-fatores.

COMPLICAÇÕES: infecções por agentes oportunistas associados com o comprometimento predominante da imunidade celular, tais como citomegalovírus, herpes, cândidas, criptococos, P. carinii, T. gondii, M. tuberculosis e outras micobacterioses. Essas infecções podem ocorrer por reativação de foco endógeno e/ou infecção exógena. Pode haver complicações pelo aparecimento de Sarcoma de Kaposi e outras neoplasias.

DIAGNÓSTICO: a detecção laboratorial do HIV é realizada por meio de técnicas que pesquisam ou quantificam anticorpos, antígenos, material genético por técnicas de biologia molecular (carga viral) ou isolamento direto do vírus (cultura). Na prática, os testes que pesquisam anticorpos (sorológicos) são os mais utilizados. O aparecimento de anticorpos detectáveis por testes sorológicos ocorre num período médio de 6 a 12 semanas da infecção inicial. Denomina-se “janela imunológica” esse intervalo entre a infecção e a detecção de anticorpos por técnicas laboratoriais convencionais. Durante esse período, as provas sorológicas podem ser falso-negativas. Devido à importância do diagnóstico laboratorial, particularmente pelas conseqüências de se ”rotular” um indivíduo como HIV positivo e para ter-se uma maior segurança no controle de qualidade do sangue e derivados, recomenda-se que os testes de detecção laboratorial eventualmente reagentes em uma primeira amostra sejam repetidos e confirmados conforme normatização estabelecida pelo Ministério da Saúde.

DIAGNÓSTICO DIFERENCIAL: imunodeficiências por outras etiologias.

TRATAMENTO: nos últimos anos, foram obtidos grandes avanços no conhecimento da patogênese da infecção pelo HIV; várias drogas anti-retrovirais foram desenvolvidas e se mostram eficazes para o controle parcial da replicação viral, diminuindo a progressão da doença e levando a uma redução da incidência das complicações oportunistas, a uma maior sobrevida, bem como a uma significativa melhora na qualidade de vida dos indivíduos. Em 1994, foi comprovado que o uso da zidovudina (AZT) pela gestante infectada durante a gestação, bem como pelo recém-nascido, durante as primeiras semanas de vida, pode levar a uma redução de até 2/3 no risco de transmissão do HIV da mãe para o filho. A partir de 1995, o uso da monoterapia foi abandonado, passando a

13Dermatologia na Atenção Básica de Saúde Cadernos da Atenção Básica ser recomendação, do Ministério da Saúde, a utilização de terapia combinada com 2 ou mais drogas anti-retrovirais para o controle da infecção crônica pelo HIV. Atualmente, a terapia antiretroviral padrão recomendada é de 3 ou mais drogas, sendo o uso de terapia dupla uma situação execpional (certas situações de quimioprofilaxia para exposição ocupacional). São numerosas as possibilidades de esquemas terapêuticos indicados pela Coordenação Nacional de DST e AIDS, que variam, conforme a presença ou não de doenças oportunistas, valor da contagem de células TCD4+ e magnitude da carga viral plasmática. Os parâmetros para indicação de tratamento e dosagem dos medicamentos para os adultos são diferentes para as crianças. Por esse motivo, recomenda-se a leitura das Recoemendações para Terapia Anti-retroviral em Adultos e Adolescentes infectados pelo HIV”, “Recomendações para Profilaxia da transmissão Maternoinfantil e Terapia Anti-retrovral em Gestantes” e do “Guia de Tratamento Clínico da Infecção pelo HIV em Crianças”, ambos distribuídos pelo Ministério da Saúde e Secretarias Estaduais de Saúde para instituições que manejam esses pacientes. Não menos importante é enfatizar que o Brasil é um dos poucos países que financia integralmente a assistência ao paciente com aids na rede pública de saúde, com gastos, só em medicamentos, em mais de 1 bilhão de reais em 2001, atendendo mais de 100.0 pacientes em todo o território nacional.

OBJETIVOS DA VIGILÂNCIA EPIDEMIOLÓGICA: prevenir a transmissão e disseminação do HIV e reduzir a morbi-mortalidade associada à essa infecção.

NOTIFICAÇÃO: somente os casos confirmados deverão ser notificados ao Ministério da Saúde.

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