AS DUAS GRANDES VERTENTESDA HISTÓRIA SOCIOLINGÜÍSTICA DO BRASIL - de Dante Lucchesi

AS DUAS GRANDES VERTENTESDA HISTÓRIA SOCIOLINGÜÍSTICA DO BRASIL - de Dante Lucchesi

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Dante Lucchesi (Universidade Federal da Bahia - CNPq)

ABSTRACT: This article presents a characterization of Brazilian sociolinguistic reality as polarized between the cultured norm and the popular, or vernacular one. The first is defined in terms of speech patterns of the middle and upper classes, the later is a composite of lower class speech patterns. The portuguese language history of Brazil is, thus, viewed from the point of these two extremes, taking into consideration the changes that occurred in both norms beginning in the last century and which reflect the deep and far-reaching transformations in the socio-economic environment during this period. This characterization is an attempt to reach a better understanding of irregular linguistic transmission that had significant impact on the history of popular Brazilian Portuguese.

RESUMO: Este artigo apresenta uma caracterização da realidade sociolingüística brasileira como bipolarizada, entre uma norma culta, definida a partir dos padrões de fala das classes médias e alta e uma norma popular ou vernácula, reunindo os falares das classes baixas. A história da língua portuguesa no Brasil é vista através dessas duas vertentes, tendo-se particularmente em conta os conjuntos de mudança que se observam tanto na norma culta quanto na norma popular, a partir do final do século passado e que refletem as profundas e extensas alterações que se operaram no panorama sócio-econômico do país nesse período. Busca-se, assim, uma melhor compreensão do processo de transmissão lingüística irregular que marcou significativamente a história do português popular do Brasil.

Key-words: Brazilian Portuguese; sociohistoric characterization; language contact; linguistic norms; language change; irregular linguistic transmission

Palavras-chave: português do Brasil; caracterização sócio-histórica; mudança lingüística; transmissão lingüística irregular

Introdução

A caracterização sócio-histórica da realidade lingüística brasileira vem atraindo a atenção de estudiosos há mais de cem anos, e, no centro da questão (ou, pelo menos, em seu ponto mais polêmico), está a relevância, ou não, do papel desempenhado pelo contato do português com línguas africanas e indígenas na história lingüística do Brasil. Já no final do século passado, Adolfo Coelho busca equacionar a questão através das semelhanças entre o português do Brasil (doravante, PB) e os crioulos de base portuguesa. O filólogo português destacava, na altura, como uma das “diversas particularidades características dos dialetos crioulos” que “se repetem no Brasil (...) a supressão das formas do plural (...) que, quando se seguem artigo e substantivo, adjetivo e substantivo etc., que deveriam concordar, só um toma o sinal de plural” (Coelho, 1880: 43 apud Tarallo, 1993a: 36).

No bojo do movimento de afirmação de uma língua brasileira, no início deste século, Renato de Mendonça (1933) e Jacques Raimundo (1933) chegam a atribuir à influência das línguas africanas a motivação de praticamente todas as características que distinguem o PB do português europeu (doravante PE). Na reação que se segue, Serafim da Silva Neto (1963), Gladstone Chaves de Melo (1946) e Sílvio Elia (1979), embora admitam a formação de crioulos e semi-crioulos decorrentes do aprendizado imperfeito do português por falantes africanos, negam uma maior influência destes na constituição do PB. Tal posição se justifica pela imagem de unidade e conservadorismo do PB por que militavam esses autores, decorrente de uma visão de superioridade cultural do colonizador branco em relação aos aloglotas.

Mattoso Câmara Jr. (1972 e 1976) também negará um papel relevante aos crioulos falados por escravos africanos no Brasil, em função do modelo teórico ao qual se filiava, o Estruturalismo, que encerrava na lógica interna do sistema lingüístico os fatores determinantes do desenvolvimento histórico da língua. Desse modo, segundo Câmara Jr., a influência das línguas africanas na constituição do PB se resumiria à aceleração de tendências prefiguradas no sistema lingüístico do português.

No decorrer da década de 80, os lingüistas norte-americanos Gregory Guy (1981 e 1989) e John Holm (1987) situam a questão da crioulização nas variedades populares da língua no Brasil. Para Guy, o português popular do Brasil (doravante, também PPB) seria resultante de um processo prévio de crioulização, iniciado de forma mais significativa a partir do século XVII, ao qual se seguiria um processo posterior de descrioulização, em função do prolongado contato do PPB com o português culto. Guy fundamentou a sua hipótese em dados da formação sócioeconômica do Brasil e buscou confirmá-la através da análise de duas variáveis morfossintáticas: a concordância de número no interior do Sintagma Nominal e a concordância sujeito-verbo. O quadro atual dessas variáveis se constituiria, segundo Guy, da seguinte maneira: após a perda das regras de concordância, decorrente do processo prévio de crioulização, estaria em curso um processo de (re)aquisição dessas regras a partir dos contextos em que elas fossem mais salientes, caracterizando assim um processo de descrioulização, pois o processo de mudança se daria em direção à língua alvo: o português culto.

Contrário a essa posição, Fernando Tarallo (1993a) argumentou que o português do Brasil, ao invés de se estar aproximando do português europeu, estaria se afastando dele. Tarallo baseou-se em suas análises das construções relativas e da retenção pronominal nas sentenças encaixadas e matrizes, destacando o fato de que, enquanto no português europeu, a retenção do pronome é muito baixa na posição de sujeito e muito alta na posição de objeto, a tendência no português do Brasil seria exatamente a inversa: um incremento do uso do pronome na posição de sujeito e um significativo decréscimo da retenção do pronome na posição de objeto. Desse modo, para Tarallo, a realidade lingüística brasileira caracteriza-se, não por uma aproximação, mas por um afastamento em relação ao que seria a língua alvo em um processo de descrioulização do português do Brasil: o português europeu.

Numa posição próxima à de Tarallo, Anthony Naro e Marta Scherre (1993) defendem – resgatando a posição de Câmara Jr. e Silva Neto – que as mudanças que se observam no português brasileiro já estariam prefiguradas ao longo dos séculos no sistema lingüístico do português e argumentam, contrariamente à influência de processos prévios de crioulização, com a ausência de registros históricos da estabilização de algum crioulo em solo brasileiro. No plano lingüístico, Naro & Scherre (1993) procuram demonstrar que as mudanças que afetaram a concordância nominal e verbal no Brasil teriam as suas origens, não na simplificação operada pelo contato entre línguas, mas em mudanças fonéticas que se teriam iniciado em Portugal, sob a ação das forças de uma deriva românica.

Considero que a dicotomia destacada por Guy entre as variedades populares e variedades cultas do português no Brasil é fundamental para o esclarecimento da questão. Em realidade, essa dicotomia perpassa, de forma mais ou menos explícita, as várias posições que se alternaram ao longo do debate1. Neste artigo, buscarei desenvolver esse ponto de vista, retomando a visão, que já expressei em outras oportunidades, de que o processo sócio-histórico de constituição da realidade lingüística brasileira é bipolarizado (Lucchesi 1994, 1996, 1998a e 1999, e Baxter & Lucchesi 1997). Assim sendo, no pólo das camadas médias e altas da sociedade brasileira, de um lado, pode-se perceber, nos primeiros séculos da história do Brasil, um comportamento lingüístico conservador de uma numericamente bastante reduzida elite colonial, voltada para os padrões lingüísticos e culturais da Metrópole. No pólo das camadas populares, de outro lado, ocorrem, desde os princípios da colonização, drásticas transformações lingüísticas, decorrentes do extenso, massivo e profundo

1 A forte influência do contato lingüístico circunscrita às variedades populares do português do Brasil é quase um truísmo e é admitida por todos os grandes estudiosos que se dedicaram ao tema, tanto os que defenderam, quanto os que negaram “as origens crioulas da língua no Brasil”. É o que se pode ver na referência de Jacques Raimundo (1933: 75) “à língua dos escravos no Brasil, uma linguagem própria, mesclada do idioma natal e do português, a que se juntou a contribuição vocabular do indígena, e que determinou as alterações ainda hoje notadas no foneticismo, no ritmo e na sintaxe de nossa fala popular”; ou no próprio Gladstone Chaves de Melo (1946), que admite a influência das línguas africanas “na morfologia, na simplificação e redução das flexões de plural e das formas verbais na fala popular”, chegando a afirmar que “a nossa língua popular, falando-se de um modo geral, é substancialmente o português arcaico, deformado, ou se quiserem, transformado em certo aspecto da morfologia e em alguns da fonética pela atuação dos índios e dos negros” (ibid.: 90-91); ou mesmo em Serafim da Silva Neto (1963), que afirma: “não somos daqueles que vêem influências lingüísticas a todo preço e a todo risco, mas em ambientes lingüísticos e sociais como no Brasil dos séculos XVI, XVII e XVIII é preciso não perder de vista esta possibilidade, ao menos para exame, como hipótese de trabalho”. Essa também é a posição de Câmara Jr. (1976: 30-31), que, apesar de afirmar que “as discrepâncias de língua padrão entre Brasil e Portugal não devam ser explicadas por um suposto substrato tupi ou por uma suposta profunda influência africana”, admite que, em relação ao português popular, “podem ter atuado substratos indígenas [...] e os falares africanos, na estrutura fonológica e gramatical”.

contato do português com as línguas indígenas e africanas. Esse contexto sociolingüístico propiciaria as condições para a ocorrência de processos de transmissão lingüística irregular, a partir da fixação forçada de milhões de africanos trazidos para o Brasil como escravos2.

O português aprendido de oitiva, em situações sociais extremamente precárias, e que era a língua de intercurso entre escravos e capatazes e senhores, e entre escravos de etnias diversas, constituiu o principal modelo para a nativização do português entre os descendentes desses escravos, sejam os provenientes de cruzamento de escravos de diferentes etnias, sejam os oriundos do cruzamento do colonizador branco com as mulheres escravas. Desse modo, nos três primeiros séculos da história do Brasil, existem situações potencialmente muito favoráveis à ocorrência de processos de mudanças crioulizantes, através da nativização do português, nos segmentos de mestiços e escravos crioulos, a partir de um modelo defectivo de português adquirido precariamente como língua segunda pelos escravos trazidos de África3.

A partir do final do século passado e no decorrer deste século, pode-se pensar em uma distensão desse quadro de pólos tão distintos e afastados em função do violento e extenso processo de industrialização e urbanização que provocou profundas modificações no panorama sócio-econômico e demográfico do país. De um lado, o padrão europeu deixa de exercer tão proeminente influência sobre a normatização da língua, observando-se um afrouxamento do padrão lingüístico entre as camadas médias e altas – em boa parte, devido aos processos de interação com as camadas baixas, com uma significativa participação de segmentos adventícios. De outro lado, verifica-se um nivelamento lingüístico dos falares rurais e populares brasileiros, levando ao desaparecimento das marcas mais radicais geradas pelo contato entre línguas, que marcou a sua formação histórica. Dessas características crioulizantes só se encontram vestígios em algumas poucas comunidades rurais afro-brasileiras isoladas (como, por exemplo, na localidade de Helvécia, no sul do Estado da Bahia,

2 A grande mortandade da população indígena, devido às doenças e à violência dos colonizadores europeus, associada à resistência cultural do índio ao trabalho forçado e à oposição da igreja à escravidão indígena, leva-nos a crer que o papel desempenhado pelo elemento nativo tenha sido muito menos significativo do que o desempenhado pelos segmentos afro-brasileiros. 3 Para uma caracterização mais detalhada desses processos de transmissão lingüística irregular, que marcaram a formação das variedades populares do português brasileiro, veja-se Baxter & Lucchesi (1997).

da qual falaremos adiante). Portanto, defendo que a compreensão do desenvolvimento de cada uma dessas duas vertentes da história sociolingüística do Brasil e das vias de interação entre ambas é crucial, não apenas para o esclarecimento do papel desempenhado pelo contato entre línguas na história lingüística do país, como também para uma mais adequada caracterização da realidade lingüística brasileira atual.

1. As duas vertentes da formação da língua no Brasil

O cenário que caracteriza o período da colonização do Brasil, desde meados do século XVI até o início do século XIX, pode ser descrito sumariamente da seguinte maneira:

O Brasil foi, no decurso de mais de três séculos, um vasto país rural. Suas cidades e vilas, quase todas costeiras, de pequena densidade demográfica e desprovidas de centros culturais importantes, nenhuma influência exerciam nas longínquas e espacejadas povoações no interior. (Cunha 1985: 17)

Nesse universo, temos, de um lado, os pequenos centros urbanos, onde se situavam os órgãos da administração colonial, sob forte influência cultural e lingüística da Metrópole. A elite colonial era naturalmente bastante zelosa dos valores europeus, buscando assimilar e preservar ao máximo (o que é previsível nessas situações) os modelos de cultura e de língua vindos d’além-mar. Desse quadro temos o significativo testemunho do cronista Pero de Magalhães Gândavo, que em 1618 define o Brasil como “academia onde se aprendia o bom falar” (apud Silva Neto 1963: 76). Esse caráter conservador e a influência dos padrões europeus sobre o antecedente histórico da variedade culta do português brasileiro perdurará até depois de proclamada a Independência, em 1822, pois, mesmo durante o século XIX, eram em sua maioria oriundos de Portugal, os professores de língua portuguesa nos colégios (Cunha 1970).

A outra vertente da formação da língua no Brasil fincou suas raízes no interior do país, para onde se dirigiu a maior parte da população no período colonial. Fora dos reduzidos centros da elite, nas mais diversas regiões do país, o português era levado, não pela fala de uma aristocracia de altos funcionários ou de ricos comerciantes, mas pela fala rude e plebéia dos colonos pobres. Além disso, a língua portuguesa tinha que lutar para se impor, em primeiro lugar, contra às variedades da língua franca de base tupi falada na costa brasileira, chamada língua geral. Por outro lado, a língua portuguesa era adquirida nas situações as mais precárias pelos escravos, que muitas vezes preferiam se comunicar entre si, usando uma língua franca africana. Sob essas ásperas condições, a língua portuguesa se foi disseminando entre a população pobre, de origem predominantemente indígena e africana, nos três primeiros séculos da história do Brasil.

A bipolaridade que marca a história sociolingüística do Brasil foi destacada já na década de 1950 pelo grande lingüista e filólogo Serafim da Silva Neto:

Dos princípios da colonização até 1808, e daí por diante com intensidade cada vez maior, se notava a dualidade lingüística entre a nata social, viveiro de brancos e mestiços que ascenderam, e a plebe, descendente dos índios, negros e mestiços da colônia. (1963: 8-9)

Para além do seu vasto conhecimento sobre a história da língua portuguesa,

Silva Neto baseou a sua visão em preciosos depoimentos históricos, que através da sua pesquisa vieram à luz. Tal é o caso dessa descrição da situação lingüística do

Maranhão, feita em 1819, por um frei Francisco dos Prazeres:

Presentemente a língua corrente no país é a portuguesa; os instruídos a falam muito bem; porém entre os rústicos ainda corre um certo dialeto, que, enquanto a mim, é o resultado da mistura das línguas das diversas nações que tem habitado no Maranhão (apud Silva Neto, 1963: 90)4

Assim, enquanto, nos restritos círculos da elite dos pequenos centros urbanos, a “gente boa” da colônia cultivava a língua e as maneiras importadas da Metrópole, nas vastas regiões do país, a língua portuguesa passava por drásticas alterações, sobretudo em função da aquisição precária que dela faziam negros, índios e mestiços. Testemunho eloqüente desse radical processo de mudança lingüística operado na língua popular nos é dado, já no século XVII, pelo texto perspicaz do Padre Antônio

Viera (apud Silva Neto, 1988: 600):

(...) falam [as nações asiáticas] a língua portuguesa, mas cada uma a seu modo, como no Brasil os de Angola, e os da terra (...) A língua portuguesa tem avesso e direito: o direito é como nós a falamos, e o avesso como a falam os naturais (...) Eram línguas partidas, não só porque eram muitas línguas, senão porque eram

4 Vale lembrar que o Maranhão abrigou uma grande população de índios tupinambás que para lá afluíram nos finais do século XVI e início do XVII, expulsos pelos colonizadores brancos de outras regiões do litoral brasileiro, sobretudo Rio de Janeiro e Bahia. Essa província também recebeu largos contingentes de escravos africanos importados para o trabalho nas lavouras de algodão, entre os séculos XVII e XIX.

línguas e meias línguas: meias línguas, porque eram meio portuguesas e meio de todas as outras nações que as pronunciavam e as mastigavam a seu modo.

Para o século XIX, temos o testemunho dos viajantes estrangeiros. Em 1820,

conservavam qualquer coisa de infantil em seus modos, linguagem e idéiaso que é

Saint-Hilaire, “tão cuidadoso em tudo que se refere ao Brasil, notara que os negros uma das características dos falares crioulos”. Em 1868, “o viajante inglês Burton, meticuloso e honesto observador, diz que os escravos negros de Morro Velho falavam luso-hamítico” (Silva Neto, 1963: 109).

Com efeito, esses testemunhos históricos fazem referência a mudanças de tipo crioulizante que afetaram a língua portuguesa no Brasil, desde o início da colonização até meados do século passado. Se não é possível determinar com absoluta segurança a intensidade desses processos crioulizantes e a sua repercussão para a língua do país como um todo, o certo é que o português sofreu profundas alterações ao ser adquirido inicialmente pelos índios aculturados e posteriormente por contigentes cada vez mais expressivos de escravos trazidos da África; desencadeando um processo de transmissão lingüística irregular que marcou decisivamente a formação das atuais variedades populares da língua portuguesa no Brasil.

Nas primeiras décadas da colonização, a população do Brasil era, em sua maioria, indígena ou mestiça de pai português e mãe índia. Essa população dedicavase, inicialmente, à extração do pau-brasil e, posteriormente, ao cultivo da cana-deaçúcar. A língua que usavam era a geral, oriunda de uma língua franca de base tupinambá, utilizada como língua de intercurso das tribos indígenas que, na época, habitavam a costa brasileira. Entretanto, essa situação começa a se modificar já no final dos quinhentos, com a emergência dos prósperos engenhos de cana do Nordeste, que logo se tornariam o setor mais dinâmico do empreendimento colonial. A partir do século XVII, verifica-se uma predominância crescente da mão-de-obra escrava de origem africana sobre o contingente indígena escravizado – o primeiro objeto da sanha escravista do colonizador europeu5. A introdução de milhões de escravos africanos6, ao longo de mais de três séculos, foi, assim, decisiva para a consolidação

5 Cf. Ribeiro (1997: 98): “A escravidão indígena predominou ao longo de todo o primeiro século. Só no século XVII a escravidão negra viria a sobrepujá-la”. 6 As estimativas do número do contingente de africanos introduzidos no Brasil pelo tráfico de escravos variam enormemente consoante as fontes consultadas e vai desde a pouco mais de três milhões do português como a língua hegemônica no Brasil7. Esses largos contigentes de mãode-obra forçada acabaram por garantir a formação econômica da sociedade brasileira, sucessivamente: na lavoura agro-exportadora do açúcar, do algodão e do tabaco, nos séculos XVI e XVII, principalmente no nordeste do Brasil, nos estados da Bahia e Pernambuco; no grande ciclo da mineração de ouro, no século XVIII, nas Minas Gerais; e, finalmente, na cultura agro-exportadora do café, no século XIX, nas regiões dos estados de São Paulo e do Rio de Janeiro.

Com a fixação e a aculturação dessa população africana em regiões cada vez mais abrangentes do território brasileiro, a língua portuguesa, na variedade falada por esses contingentes de trabalhadores braçais analfabetos, se vai impondo sobre a chamada língua geral. Deve-se destacar, também, que muitos escravos africanos e, principalmente, os seus descendentes crioulos foram deslocados do nordeste para o sudeste, pois, com declínio da cultura do açúcar, os senhores de engenho foram forçados a vender os seus escravos para os exploradores das minas; e estes, por sua vez, com o esgotamento das jazidas de ouro e diamantes, venderam sua escravaria para as emergentes plantações de café do Vale do Rio Paraíba e do interior paulista. Por outro lado, considere-se também as legiões de mestiços e brancos pobres que, como criadores de gado, pequenos artesãos e pequenos lavradores, produziam serviços e produtos indispensáveis à manutenção desses grandes empreendimentos coloniais. Esse massivo deslocamento de populações pode explicar em boa medida a homogeneidade diatópica das variedades populares do português do Brasil.

Pode-se, assim, perceber, neste imenso processo de ocupação geográfica que determinou a unidade lingüística do Brasil, o papel crucial que desempenhou o aprendizado precário do português pelos escravos africanos – que, em sua maioria, viviam em situação de violenta opressão e incivilidade – e a conversão desse modelo

(Simonsen 1937) até cerca de 13,5 milhões (Calógeras 1927). Ribeiro (1997), cotejando várias fontes, faz uma estimativa de algo em torno de seis a sete milhões. De qualquer forma, o peso demográfico dos africanos e seus descendentes foi bastante significativo nos primeiros quatro séculos da história do Brasil; sendo que, na virada da primeira metade do seculo XIX, se estima que os segmentos africanos e de seus descendentes (em larga proporção mestiços) representavam cerca de 65% do total da população do país (cf. Chiavenato 1980: 237). 7 Cf. Ribeiro (1997: 116): “Concentrando-se em grandes massas nas áreas de atividade mercantil mais intensa, onde o índio escasseava cada vez mais, o negro exerceria um papel decisivo na formação da sociedade local. Seria, por excelência, o agente da europeização que difundiria a língua do colonizador”.

defectivo de português, adquirido como língua segunda (um português mais ou menos intensamente pidginizado, conforme o caso), em língua materna dos seus descendentes endógamos ou mestiços8. E, se tivermos em conta que, até a metade do século X, a grande maioria da população brasileira era analfabeta, que os meios de comunicação de massa praticamente não existiam e que o acesso a vastas regiões do país era muito precário e que, portanto, a influência dos padrões lingüísticos urbanos e institucionais era mínima, pode-se facilmente pressupor que muitas variedades mais ou menos crioulizadas do português eram faladas no interior do território nacional até as primeiras décadas deste século9.

Por outro lado, já em meados do século XIX, após a independência, conformam-se as primeiras manifestações de nacionalismo cultural e lingüístico. O movimento político, institucional e cultural de constituição de uma nova nação independente se foi refletindo, lentamente e não sem resistência, no plano lingüístico, libertando o padrão lingüístico nacional de seus cânones conservadores e europeizantes10. Esse processo se intensifica sobremaneira nas primeiras décadas deste século com a industrialização e o crescimento vertiginoso dos centros urbanos11. A atmosfera cosmopolita que então se cria tem como conseqüência natural a democratização dos padrões culturais e lingüísticos, da qual o Movimento Modernista de 1922 foi a mais significativa expressão. A vulgarização do sistema de ensino público e o fenômeno dos meios de comunicação de massa, ocorridos nas últimas

8 Situação um pouco distinta seria à dos escravos domésticos e urbanos, que teriam um melhor acesso a modelos mais completos de português. Contudo, a ausência de escolaridade (que, no caso das mulheres, se estendia também às brancas e mestiças livres) e a falta de meios institucionais de difusão do padrão lingüístico dominante, poderia fazer com que, nesse íntimo contato dos escravos nativos e mestiços com os brancos na “casa grande” (particularmente no caso das amas escravas, que amamentavam e criavam as crianças brancas filhas dos senhores coloniais) e nos centros urbanos, certos padrões lingüísticos desviantes da fala negra e mestiça tenham penetrado na fala das classes mais altas da população branca. 9 Há que se registrar também a supervivência de línguas francas africanas, como o iorubá, o chamado “dialeto nagô”, que, segundo Nina Rodrigues (1935), era corrente entre a população pobre de Salvador até o início deste século. Registre-se também vestígios dessas línguas francas africanas, nas línguas secretas de base lexical quimbundo recentemente descobertas nas localidades de Tabatinga (MG) e do Cafundó (SP), das quais falaremos adiante. 10 Veja-se sobre isso, entre outros, Cunha (1970: 1-27). 1 Nesse aspecto, o crescimento da cidade de São Paulo constitui o exemplo mais eloqüente de todos. A sua população cresceu quase dez vezes em apenas 30 anos, passando de 65.0 habitantes em 1890 a 579.0, em 1920; e, em mais de duas vezes, nos 20 anos seguintes, atingindo a cifra de 1.308.0 habitantes, em 1940; taxa de crescimento que se manteve nos 20 anos subseqüentes, já que, em 1960, a décadas, acabaram por consolidar a tendência ao afrouxamento normativo no português culto, configurando-se, assim, neste século, a direção da mudança na norma culta, que tende a se afastar do padrão prescrito pelas gramáticas normativas; estas, sim, em alguns aspectos, em flagrante conflito com a realidade lingüística, preservando uma anacrônica fidelidade aos cânones de Coimbra.

Por outro lado, ocorrem, também neste século, significativas mudanças no panorama cultural e lingüístico das camadas mais baixas da população brasileira. De um lado, observa-se o massivo deslocamento da população do campo para a cidade, invertendo-se totalmente o predomínio de uma sociedade basicamente rural, que se verificava até o início desse século. Já há algumas décadas, o Brasil é um país eminentemente urbano, cujas grandes metrópoles exercem uma profunda e extensa influência sobre as demais regiões12. Essa influência cultural e lingüística passa pela enorme expansão da malha rodoviária, pelo vertiginoso desenvolvimento dos meios de comunicação de massa e pela massificação do ensino básico, em que pese toda a precariedade do sistema de educação pública. Assim, configura-se a tendência da mudança do português popular em direção aos modelos da norma culta, que atingem e influenciam as camadas mais baixas da população através da televisão, do rádio, ou pelo contato direto, proporcionado pelas modernas condições de transporte, ou mesmo através do precário sistema de ensino. Nesse contexto, estão em vias de desaparecimento as marcas mais drásticas das alterações produzidas pelo extenso contato entre línguas ocorrido nos séculos anteriores, mantendo-se os vestígios das características mais expressivas do processo de transmissão lingüística irregular apenas naqueles dialetos rurais mais afastados, em que o contato foi mais radical e a restruturação lingüística, mais profunda.

Caso particularmente interessante é o das comunidades rurais afro-brasileiras isoladas, que provém de antigos quilombos ou de agrupamentos de ex-escravos, que população da cidade já correspondia a 3.825.0 habitantes. E, fato impressionante, a população da cidade de São Paulo hoje é 200 vezes maior do que era há cem anos (cf. Burns, apud Guy 1981: 50). 12 Para se ter uma idéia das proporções desse processo de urbanização da sociedade brasileira, basta que se diga que, em 1940, quase setenta por cento dos 41.236.315 habitantes do Brasil viviam no campo; já em 1970, cerca de 56% da população vivia nas cidades, contra 4% da população rural; e, em 1996, a população urbana corresponde a quase 80% dos 157 milhoes de habitantes do Brasil (FONTES: Estatísticas Históricas do Brasil. Volume 3. Rio de Janeiro: IBGE, 1987; Anuário receberam doações de terra, no final do século passado. Nessas comunidades, ainda se observa, na fala dos seus membros mais velhos, alguns traços lingüísticos que apontam claramente para mudanças drásticas resultantes de um processo pretérito de transmissão lingüística irregular. Porém, esses traços praticamente desapareceram na fala dos mais jovens, que, diferentemente dos seus avós, ouvem rádio e assistem à televisão, e tiveram acesso a pelo menos um ano de instrução pública. Tivemos, inclusive, a oportunidade de, em nossas pesquisas de campo, colher referências à fala “esquisita” e “embolada” dos antigos. Pode-se tratar aí de uma variedade mais intensamente crioulizada do português, ou mesmo de remanescentes de línguas gerais africanas que foram sendo progressivamente aportuguesadas, como no caso das línguas secretas das comunidades do Cafundó, em São Paulo, ou de Tabatinga, em Minas Gerais, recentemente descobertas – cf. Fry, Vogt & Gnerre (1981) e Vogt & Fry (1982, 1983 e 1985), e Queiroz (1984).

Com efeito, o processo de mudanças descrioulizantes pode ter ocorrido de forma muito acelerada no decorrer deste século entre essas comunidades rurais, em função do violento processo de penetração no campo das grandes empresas capitalistas. Pensemos, inicialmente, no alto grau de isolamento lingüístico e cultural em que viviam, por exemplo, as comunidades quilombolas, clandestinas e ilegais até a abolição da escravatura – uma situação social altamente favorável à crioulização do português, ou mesmo à manutenção, em uso corrente, de línguas francas de base africana. Essa situação certamente pouco se alterou até as primeiras décadas deste século. A partir daí, inicia-se o violento processo de ocupação de vastas zonas rurais através dos empreendimentos capitalistas de mineração, extração madeireira e de produção de celulose, entre outros. Esses empreendimentos expulsavam de suas terras essas comunidades, e/ou acabavam por integrar os seus indivíduos no processo extrativo e/ou produtivo, através da exploração de sua força de trabalho, alterando drasticamente o seu modo de vida e desarticulando a sua cultura. A fala dessas comunidades a fortiori sofreria as maiores conseqüências desse processo, perdendo todas as suas particularidades crioulizantes, ou mesmo desaparecendo na medida em que a coletividade que a usava se desintegrava. Desse modo, a intensa e violenta

Estatístico do Brasil. Volume 56. Rio de Janeiro: IBGE, 1996; Contagem da População 1996. Volume penetração do capitalismo no campo brasileiro teve como uma de suas conseqüências a de praticamente eliminar qualquer evidência empírica acerca do nível de crioulização que a língua portuguesa sofreu no Brasil.

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