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A PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL (1914 -1918)

Entre 1870 e 1914, a burguesia européia viveu uma era de ouro. Esse período foi chamado de Belle Époque, Bela Época. Para essa classe, parecia que todos os problemas do mundo haviam sido resolvidos: a Europa estava em paz, o progresso técnico era cada vez mais surpreendente, fortunas se faziam da noite para o dia. Mas a Belle Époque só existia na cabeça dos afortunados. Problemas econômicos e sociais afligiam as classes menos favorecidas e a estabilidade política da Europa era apenas aparente.

Em 1914, a Europa – em especial, a Inglaterra – ainda dominava o resto do mundo. Somente os Estados Unidos da América, que já podiam ser considerados uma potência econômica, e o Japão, que se desenvolvera rapidamente com a Revolução Meiji, escaparam da influência européia.

A Paz Armada

Dentro da Europa, o equilíbrio do poder entre as nações mostrava-se frágil. Essas nações formaram blocos, buscando garantir a defesa de seus interesses nacionais. A Alemanha, em especial, tornara-se um problema para a política européia. Desenvolvera-se rapidamente depois da sua unificação, comandada por Bismarck, e desejava obter áreas coloniais.

A Alemanha, com seu desenvolvimento econômico e sua agressiva política expansionista, passava a ameaçar a hegemonia inglesa. Além disso, estava em conflito com a França. A Alemanha anexara em 1871, o território francês da Alsácia-Lorena e tentava impedir que a França penetrasse no Marrocos. A Alemanha e a Rússia também não se entendiam. Esses países disputavam o controle do Estreito de Dardanelos. O expansionismo russo prejudicava os objetivos imperialistas da Alemanha, que queria construir uma estrada de ferro ligando Berlim a Bagdá. Essa estrada permitiria aos alemães dominar uma região petrolífera que se encontrava nas mãos dos ingleses.

Mas os conflitos europeus não se restringiam à política agressiva da Alemanha. Os “jovens turcos” lutavam para reconstituir o Império Otomano. A Rússia tinha interesses nos Bálcãs e apoiava os servos, que desenvolviam uma luta nacionalista contra a Áustria. Em 1908, o Império Austro-Húngaro anexou as regiões eslavas da Bósnia e da Herzegovina. A Sérvia, que queria reunir e liderar todos os povos eslavos da região reagiu violentamente.

Em todos os conflitos transparecem os nacionalismos, isto é, a defesa da nação identificada com língua, o território, a etnia e os costumes. Por isso, as anexações de territórios, geradas pela corrida imperialista, representavam uma agressão aos sentimentos nacionalistas. Para sustentar o nacionalismo e apoiar o imperialismo, os países prepararam seus exércitos, adquiriram ou fabricaram armas pesadas.

Entre 1871 e 1914, uma estrutura de alianças e apoios diplomáticos conseguiu manter a estabilidade política na Europa. No fim da década de 1890, três grupos de poder destacavam-se na Europa: o Império Britânico, a aliança entre a França e a Rússia e Tríplice Aliança que reunia a Alemanha, o Império Austro-Húngaro e a Itália. Em 1907, a Inglaterra uniu-se à França e à Rússia na Tríplice Entente com o objetivo de conter a Alemanha.

O início do conflito

Em 1914, devido ao instável equilíbrio político da Europa e aos nacionalismos exagerados, a paz estava ameaçada. Foi exatamente a luta nacionalista na Sérvia a responsável pelo início da Primeira Guerra Mundial. O incidente que deu início ao conflito foi o assassinato do herdeiro do trono austríaco, Francisco Ferdinando, por um estudante sérvio, membro de uma organização nacionalista, em junho de 1914.

A Áusria, apoiada pela Alemanha, sua companheira na Tríplice Aliança, declarou guerra à Sérvia, depois que esta desprezou o ultimato que lhe fora dado. A Áustria exigia que as autoridades servas apurassem o assassinato de Francisco Ferdinando e que as organizações secretas nacionalistas encerrassem suas atividades. A Rússia imediatamente se mobilizou em defesa da Sérvia. A Alemanha, por sua vez, aliada da Áusria, declarou guerra à Rússia e, depois, à França. Os alemães desrespeitaram a neutralidade da Bélgica e a invadiram, do que resultou a declaração de guerra da Inglaterra à Alemanha. Inciara-se a Primeira Guerra Mundial!

Ainda em 1914, o Japão entrou na guerra contra a Alemanha e a Turquia aliou-se à Tríplice Aliança, manteve-se neutra até 1915, quando declararam guerra aos seus antigos aliados, a Alemanha e a Áustria.

Estratégias Militares

No início do conflito, a Alemanha estava convicta que a guerra ia ser curta. O plano alemão era arrasar o exército francês, com um cerco através da Bélgica, antes que os russos se mobilizassem. Mas isto não foi o que aconteceu. Rapidamente, o exército alemão se viu frente à ofensiva russa e dos aliados.

O exército alemão tentou invadir e conquistar a França, mas foi impedido pelas tropas francesas na Batalha de Marne. Buscando avançar pelo mar, os vasos de guerra alemães foram detidos pela Inglaterra. Essa fase do conflito foi chamada de Guerra de Movimento.

A Guerra de Movimento foi seguida, a partir de 1915, pela Guerra de Trincheiras. Numa primeira manobra, a Alemanha enfrentou o exército russo na frente oriental. A partir de 1916, o exército alemão enfrentou a França, na frente ocidental. A ofensiva alemã na frente ocidental foi contida com a Batalha de Verdum.

Em 1917, dois fatos novos mudaram o rumo do conflito. Os Estados Unidos da América, que tiveram navios afundados pelos submarinos alemães, entraram na guerra ao lado da Tríplice Entente e acabaram por decidir os rumos que o conflito tomou.

A Rússia, por sua vez, enfrentando o processo revolucionário liderado pelos bolchevistas (facção majoritária da divisão ocorrida na social -democracia quando do Congresso de Bruxelas [1903]), assinou uma trégua, conhecida com a Paz de Brest-Litovsky, a Rússia renunciou à Polônia, Ucrânia, Finlândia, Estônia, Letônia e Lituânia, perdeu suas minas de Carvão e foi obrigada a uma vultuosa indenização.

Em 1918, já estava patente que a Alemanha esgotara suas estratégias militares e estava derrotada na guerra. O Kaiser renunciou e foi proclamada a República de Weimar. O novo governo alemão se rendeu. Em 11 de novembro de 1918, foi assinado o armistício de Compiégne que colocou um ponto final no conflito.

Os Tratados de Paz

Quisera Deus que eu nunca vivera para ver esse dia! Por que eu não morri enquanto a Alemanha vivia seus dias de grandeza? Essa afirmação foi feita pelo Príncipe Von Bülow, chanceler alemão antes da Primeira Guerra, chocado com as humilhações impostas à Alemanha pelos tratados de paz.

A conferência de Paris, realizada em janeiro de 1919, foi convocada para decidir quais seriam as condições de paz com a Alemanha. As decisões dessa Conferência foram tomadas efetivamente pelo Presidente Wilson dos Estados Unidos, Lloyde George da Inglaterra e Georges Clemenceau da França. No final de 1919, os termos do Tratado de Versalhes estavam prontos e foram comunicados aos delegados alemães.

Pelas cláusulas do Tratado, foi reconhecida a independência da Bélgica e criada a Liga das Nações, órgão responsável pela manutenção da paz.

A Alemanha foi obrigada a devolver a Alsácia-Lorena à França, a entregar Dantzig, importante porto do mar Báltico, à Liga das Nações, que encarregou a Polônia de sua administração. Além disso, a Alemanha perdeu suas colônias e foi penalizada com a decisão dos aliados de que reduzisse seu exército, extinguisse sua marinha de guerra, submarinos, aviação de guerra e artilharia pesada.

A Alemanha ainda deveria reconhecer que fora responsável pelos conflitos e, portanto, deveria arcar com os prejuízos causados pela guerra aos países envolvidos. Para reparar esses danos a Alemanha foi obrigada a pagar pesadas indenizações.

Como resultados da guerra, além do trágico número de 9 milhões de mortos e 40 milhões de inválidos, o mapa da Europa se modificou e os EUA se tornaram a potência mais importante do mundo. E, principalmente, as disposições dos aliados para os países perdedores prepararam o terreno para um outro conflito mundial – a Segunda Grande Guerra.

“Visão de uma Trincheira”

Vifwege, 27 de abril de 1915

O campo de batalha é terrível. Há um cheiro de azedo, pesado e penetrante de cadáveres. Homens que foram mortos no último outubro estão meio afundados no pântano e nos campos de nabos em crescimento. As pernas de um soldado inglês, ainda envoltas em polainas (peça para proteger a parte inferior da perna, se usa por cima do calçado), irrompem de uma trincheira, o corpo está empilhado com outros; um soldado apóia o seu rifle sobre eles. Um pequeno veio de água corre através da trincheira, e todo mundo usa a água para beber e se lavar; é a única água disponível.

(Rudolf Binding, Um fatalista na guerra)

Sobre a Conferência de Paris

Desde janeiro de 1918, o Presidente Wilson havia apresentado os quatorze pontos que deveriam ser utilizados para a redação dos tratados de paz com os países derrotados na Primeira Guerra Mundial. O Presidente Wilson, contudo, não conhecia a intricada política européia e insistia na sua proposta, que era muito suave com relação à Alemanha. Georges Clemenceau, o representante francês, apelidado de o Tigre, profundo conhecedor dos problemas europeus, irritou-se, na Conferência de Paris, com a insistência de Wilson. Em um momento dos debates, Clemenceau perguntou, irônico, a Wilson: “Se até Deus se contentou com os dez mandamentos, qual é a razão de você insistir em catorze, meu caro Wilson?” Ao final da Conferência de Paris, o revanchismo dos franceses saiu vitorioso e a Alemanha foi duramente castigada.

Explicando os motivos da Primeira Guerra

No plano ideológico, a época da Primeira Guerra Mundial se caracterizou pela intensificação da propaganda dos nacionalismos, os quais serviam para encobrir as ambições imperialistas. Destacaram-se o Pangermanismo (desenvolvido na Alemanha e afirmando a superioridade da “raça” alemã), o Revanchismo (dominando a França e com idéias de uma desforra contra a Alemanha por causa das perdas e humilhações sofridas em 1870) e o Pan-eslavismo (difundido na Rússia e atribuindo aos russos a função de “proteger” os demais povos eslavos).

Para sustentar o nacionalismo agressivo e o imperialismo beligerante, os países empreenderam a corrida armamentista. Intensificou-se a produção de armas e munições, desenvolveu-se a construção naval, aumentaram-se os exércitos: criou uma paz armada.

Tríplice Entente Inglaterra, França e Rússia

Aliados - Sérvia, Rússia, Bélgica, Japão, Portugal, Montenegro, Itália, San Marino, Romênia, Grécia, Estados Unidos, Brasil, Cuba, Panamá, Haiti, Guatemala, Honduras, Costa Rica, Nicarágua, Libéria, China e Sião. Bolívia, Equador, Peru e Uruguai romperam relações diplomáticas com a Alemanha.

Tríplice Aliança - Alemanha, Áustria, Hungria, Turquia e Bulgária.

Conclusão

Concluindo, podemos afirmar que a Primeira Guerra Mundial ocorreu devido ao choque de interesses econômicos, às pretensões capitalistas (imperialismo) e ao nacionalismo acentuado (chauvinismo). O poder de um país passou a ser avaliado pelo domínio dos espaços geográficos estratégicos. Para isso, investiu-se na formação de exércitos, por meio do serviço militar obrigatório, apelando-se para a exaltação do patriotismo. O aperfeiçoamento bélico, decorrente da aplicação dos novos conhecimentos técnicos e científicos, promoveu a corrida armamentista e impôs pesadas despesas financeiras à sociedade. No decorrer deste período, floresceu uma ideologia que justificava o fortalecimento militar, as ações estratégicas e o crescimento naval. Para o estudioso da época, o americano Alfred Thayer Mahan: “O controle das rotas marítimas alimenta a economia nacional e esta, por sua vez, assegura o êxito dos esforços militares garantindo a vitória final”.

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