Resenha: O Deus da Idade Média

Resenha: O Deus da Idade Média

UNIVERSIDADE ESTADUAL VALE DO ACARAÚ-UVA

Centro de Ciências Humanas -CCH

Disciplina: Medieval II

Prof. Igor Moreira Alves

Nome: GleicianePaulo Albuquerque

Curso: História

Turma: 2010.1

GOFF, Jacques Le. O Deus da Idade Média: conversas com Jean-Luc Pouthier. Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, RJ, 2007.

O Deus da Idade Média livro de Jacques Le Goff, Grande medievalista francês, nos traz concepções de Deus para a sociedade medieval, como o mesmo o cita, e uma conversa a cerca do que tivemos como compreensão do que foi Deus, para a população na antiguidade Tardia. Para o autor Deus é a principal personagem para a abordagem de seu estudo, uma vez que Deus é um assunto da historia. Dividido em quatro capítulos, um livro com leitura encantadora e tranqüila, nos faz pensar Deus sobre uma óptica da cultura ocidental, já que Deus em foco é o Deus dos cristãos, com “D” maiúsculo.

O Deus acolhido e oficializado pelo império romano do ocidente, na chamada antiguidade tardia. O Deus que embora incorporado por este império, não foi um Deus único, puro, foi uma difusão, uma confluência de práticas religiosas tidas como heréticas, mas que foram impostas a grande massa após oficialização do cristianismo como religião oficial do Estado romano.

Em o Deus da Idade Média as características da atual história da religião, permeiam durante a narração dos quatro capítulos do livro, logo no primeiro capítulo o autor questiona que “diferentemente de Javé e de Alá, que o Judaísmo e o Islam protegeram de qualquer figuração, por outro lado o Deus dos cristãos pode ser representado”. Isso se refere à adoração de imagens, antropomorfização do Deus cristão, que se durante a idade média, período de grande ascensão do cristianismo no ocidente. Logo em seguida, Le Goff aponta:

A imagem de Deus não liga apenas à iconografia. Também está no centro da Teologia, da liturgia, da espiritualidade, da devoção, como os homens e mulheres da Idade Média imaginavam Deus? Que relacionamento mantinham com ele? Este é o assunto, a um tempo muito amplo e muito preciso, destas conversas . (p. 10)

Conforme citação o autor procura entender a representação de Deus para os homens e mulheres que viviam no período do medievo, uma vez que muitos medos eram as companhias principais das mentes dos homens e mulheres nesse período, porém para ele a imagem de Deus se relaciona a pessoa que imagina deus conforme o tempo ao qual está inserido. Existem muitos “Deus”, um para cada pessoa que o idealiza, como sua imagem muda com o tempo “tentamos aprender esses diferentes ‘Deus’ em torno de alguns dados essenciais: o Deus da Igreja, Deus da religião oficial; o Deus das práticas, que na idade média estão fundamentalmente religiosas, antes que emergem aspectos profanos”.

Será que o Deus da idade média é o mesmo da atualidade? O Deus oficial do ocidente é o mesmo deus de outras culturas? O Deus do monoteísmo é o mesmo do politeísmo? Como um só Deus ao mesmo tempo é três (pai, filho e espírito santo)? Qual a diferença o Deus dogma e o Deus fiel? São perguntas que no decorrer da narrativa Le Goff busca refletir.

Assim de um Deus que era perseguido pela religião do estado, rejeitado, perseguido na antiguidade, esse mesmo Deus torna-se oficial, perseguidor. Do culto à vários “Deus”, na antiguidade tardia o homem passa a cultuar um único Deus, monótono, no medievo, um Deus perseguidor, que vigia , que pune, que tudo vê, o grande juiz. O cristianismo tornou-se uma religião que promete vida eterna, aos servos fiéis.

Os outros “deuses” são falsos, não são oficiais. No capítulo dois “Duas figuras maiores, o espírito santo e a virgem Maria”, onde o autor explora a idéia ambígua do mundo medieval onde o mundo é dividido entre o bem e o mal, entre anjos e demônios. É um mundo envolvido, pelas tentações, pelos pecados, pela oposição entre o Deus bom justo, todo-poderoso, como também do Deus terrível, castigador.

Um homem idoso, a um tempo diretor e protetor. É uma fonte de autoridade. É o Deus que convém a uma sociedade que se constitui lenta e dificilmente. É o Deus que permanece no céu, não mostrando, mas eventualmente mais do que sua mão através das nuvens. (p. 38)

No mesmo capítulo vimos à oposição à qual os Santos assumiram, conforme o tempo, não deixando de cada que a importância dos Santos no cotidiano cristão se deu durante a antiguidade tardia. Porém, Legoff chama atenção para o fato de que Deus é a figura maior, superior, ele é inacessível, e os homens e mulheres nesse período tinha essa consciência, apesar de hoje a oposição dos Santos para o cristianismo, ser maior que no medievo. O apelo aos Santos tornou-se maior.

O Deus da antiguidade tardia é um Deus homem ao mesmo tempo divino. Um Deus pai, filho e espírito santo, um Deus protetor, um senhor majestade. O saber no medievo era algo reservado para Deus que era o senhor do conhecimento e da verdade terrena. Um Deus sofredor e a exemplo de seu pai, seus filhos deveriam também sofrer. Le Goff discute também a importância da virgem Maria e dos anjos, nesse período. O famoso manto protetor de Maria, que protege, além de ser uma forte representação feminina divina. A virgem é a ligação de Deus com os homens.

Outros que também recebem destaques são os anjos da guarda, que também protege e guardam as pessoas dos males, dos monstros, dos demônios que “insistem em tentar” os homens e mulheres daquele período. Outra imagem também modificada na idade média é a figura da criança, expressamente mostrada na figura do menino Jesus, a criança torna-se algo divino, amável, ligado ao culto da virgem Maria ascendem no medievo, adquirindo um status divino simbólico.

O Deus dos cristãos que ao contrário dos Judeus e dos islâmicos, que é anicômico, ou seja, não pode ou não necessita ser representado, uma vez que os seguidores dessas religiões não pode ser iconografado. As demais religiões não aceitam, não adoram um Deus representado, por meio de imagens.

Quando Le Goff cita a Santíssima Trindade, que é uno e múltiplo- Pai, Filho e Espírito Santo- como já mencionado, e temos o Espírito Santo sobre a forma de uma pomba, ou seja, assume uma forma antropomórfica. A figura do rei “todo poderoso”, majestoso, sentado no trono, julgando as atitudes dos servos. Essa é a figura do Deus pai, da Idade Média.

Essa mão define a um só tempo a natureza e a função reconhecidas pó Deus feudal. É uma função de comando, trata-se de uma mão que ordena que pune; e é uma função de proteção, trata-se de uma mão que protege. ( p.71)

Segundo Le Goff, no mundo medieval, tudo se volta para a religião, para Deus, desde comportamentos, os pensamentos, crenças, este era o pensamento na Europa cristã feudal. Deus e sistema feudal são inteiramente ligados “o regime feudal implicará um empreendimento conjunto de descristianização. O regime feudal e a Igreja eram de tal forma ligada que não era possível destruir um sem o outro” (p. 83).

No capítulo quatro, último do livro, “ Deus na cultura medieval” Le Goff aborda a cultura do cristianismo como uma forte doutrina, na qual rege e organiza a vida da sociedade na antiguidade tardia, construindo fortes identidades da cultura no ocidente. Mas complexos que os anteriores, uma vez que apresenta reflexões mais teóricas filosóficas e teológicas do que históricas. O autor aborda, ainda no capítulo quatro, que o poder da Igreja era mediado pelas influencias dos sacramentos e esta era a principal ligação entre Deus e o homem.

Os sacramentos surgiram como uma relação direta para com Deus, desde o nascimento (batismo) à morte. O autor destaca também a importância do papel das orações, que acalma, alivia os servos “pecadores”. As orações assumiram grande importância, que foram incluídos nas liturgias, nas missas como o “pai nosso”. Quando ocorre, o que Le Goff chama de promoção de virgem Maria, inclui-se a “Ave Maria”. E parte daí pensamos que são práticas ainda vigorados na atualidade pela Igreja.

Le Goff pensa a importância do homem, e o lugar deste na sociedade medieval, uma vez que tudo se volta para Deus, que é o ser supremo, detentor dos saberes nesse período. O homem é um ser inferior, submisso a Deus, ele o pecador, fraco, temente ao ser superior.

Na conclusão do livro, Le Goff cita que o maior acontecimento da Idade Média está no tocante à concepção de um Deus politeísta que se submete ao monoteísmo. A obra é essencial para pensamos as diversas concepções de Deus não só na antiguidade tarde, como também na atualidade. Nas diversas religiões, dando ênfase para o cristianismo. Deixando uma reflexão acerca de que Deus temos hoje? Quantos Deus temos? São os mesmos, ou são diferentes? As religiões moldaram as concepções do verdadeiro Deus? Existe um Deus verdadeiro? São questões aos quais devemos refletir.

Jacques Le Goff, nascido em ,Toulonno dia 1º de janeiro de 1924, historiador francês especialista em Idade Média Autor de dezenas de livros e trabalhos; membro da Escola dos Annales, se empregou na antropologia histórica do ocidente medieval. Co-diretor da Escola dos Annales, dirigiu os estudos ligados à “Nova História”, como a coletânea Faire de l’histoire em 1977 e o volumoso Dictionnaire de la Nouvelle Histoire publicado no ano seguinte, levando à revolução dos Annales. Sinal do sucesso de suas teses, ele atuou no renovamento pedagógico de história participando da redação de um manual escolar.

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